O Brasil está velho. Literalmente. São as pesquisas que dizem. Nem precisava. É só frequentar, como eu frequento, a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, tanto na emergência do SUS quanto no Hospital Santa Rita para ver ao vivo e em tristes cores. Há muito mais velhos do que novos. E não vão me dizer que é por causa do ambiente, afinal, hospital tem sempre mais gente velha e tal. Não é bem assim. Envelhecemos como população. E não tem uma política pública ou privada decente para este povo que ganhou mais anos de vida mas que não sabe o que fazer com este plus. Muito menos seus familiares.
Adoro um filme escapista chamado Cocoon, do Ron Howard, com a Jessica Tandy e o Don Hameche. Ele mostra como parte de um bando de velhos de um asilo descobre, sem querer, a fonte do rejuvenescimento ao mergulhar numa piscina abandonada onde estão casulos de extraterrestres esperando para ser resgatados e levados para seu planeta. A farra dos velhinhos com energia de jovens é algo comoventemente divertido de se ver! Também amo outro filme chamado Batteries not included, do Mathew Robbins, produção do Spielberg, que casualmente também tem a Jessica Tandy como protagonista. Ela é uma velhinha lelé da cuca cuja lanchonete vai abaixo por causa da ambição de construtores. De repente, pintam pequenos robôs na casa dela e…, bem, fica tudo bem!
Acho que vamos precisar muitos casulos e robozinhos vindos do espaço para enfrentar a situação de um país cheio de idosos sem um SUS com gestão apropriada para atendê-los, com parentes cada vez mais apavorados atrás de dinheiro para viver e crescer e um evidente aumento de casas de “cuidados” e de “cuidadores” picaretas e até maus na verdadeira acepção da palavra. Se no Japão já tem velho roubando porcaria pra ser preso por medo da solidão, o que será dos nossos, nesta terra de gente interessada em virar a cara do avesso para parecer mais jovem e que despreza quem já passou dos 60.
Faz pouco, a televisão local mostrou e as redes sociais repercutiram o desaparecimento de um homem de mais de 80 anos, que sofria de Alzheimer, que sumiu sem deixar pista de uma “casa de saúde”, como criminosamente se intitulam estes depósitos de pretenso luxo, e foi encontrado depois, acredito que já morto ou quase. Não vi mais nada a respeito porque o familiar que pediu socorro pelo pai, com certeza chocado com o que aconteceu, tirou todos os posts do ar. Pelo que li de outros, o pobre velho não resistiu ao inverno cruel que fazia quando deixou o “abrigo”.
Tenho pais com 83 anos, sempre falo neles, aqui e alhures, é de domínio público tudo o que meu pai passou e passa nos atendimentos do SUS e o que minha mãe já sofreu num balcão de posto do INSS porque sua carteira de identidade estava amassada – se pudessem, a teriam corrido de vassoura, apesar de todos meus protestos. E eu realmente chuto o balde – mando carta pra Ouvidoria da Santa Casa, e aliás sempre me respondem e me atendem, também escrevo para INSS, para Secretaria da Saúde, Ministério da Saúde, tudo que é canto. Fiz, faço, farei. É meu dever como filha. É meu direito como cidadã.
Velho não é lixo, em que pese tudo o que se faça para provar isso, neste Brasil. Em que pese a hipocrisia dos ditos remédios gratuitos que exigem receita a cada três meses como se algum pobre velho e seus familiares pudessem estar, a cada três meses, enfrentando turnos inteiros à espera de um médico sobrecarregado, em geral de maus bofes, para renovar a receita. Receita essa que, se não for usada pelo titular, na farmácia, não será levada em conta: quem buscar os medicamentos, vai ter de levar procuração. Piada? Não! Maldade, nesta terra de tanta gente suja levando nossa grana depois de levar voto dos imbecis que acreditam em político safado.
Portanto, preparemo-nos. Só não envelhece quem morre antes. Vai ser brabo, daqui pra frente, viver em meio a tanto idoso mal cuidado e perdido no mundo. Vai ser terrível ser idoso num quadro tão sombrio. Deus nos ajude, porque se o milagre não vier do céu, babaus.
