A tal da etiqueta morreu. Bons modos, essas coisas. Em todo e qualquer setor da vida, acabou. Não falo aqui de opiniões sinceras, francas, agressivas muitas vezes, temperadas até por expressões que a gente já classificou, um dia, como “fortes”. Falo de coisa pior: da vontade de aparecer e ser qualquer coisa sem o menor pudor, sem a menor sombra de preocupação em ao menos por um segundo se questionar. Coisa chata isso que escrevo. Mas mais chato ainda é o que acontece no entorno.
Chegamos ao ponto (e falei nisso nas últimas semanas) em que homens calvos, bigodudos e com excesso de confiança conseguem arregimentar milhares de seguidores em redes sociais mesmo postando uma foto em que exibem, orgulhosamente, a pança cabelula e semelhante a um barril. Sem camisa, claro.
Na mesma linha, jovens e outras, desgraça maior, nem tanto, ilustram sua absoluta falta de assunto e de vergonha com uma imagem fixada em alguma praia ou mesmo um gramado em que, a exemplo de arremedo de divas pornôs, se mostram em minúsculos biquínis. E, na identificação, tascam: advogada, administradora de empresas, produtora cultural, etc e tal. Aí, pergunto: quem, de um mínimo de bom senso, contrataria para dar aulas ou defender sua causa uma nobre causídica em trajes menores?
Na mesma linha indecente por sua falta de ética estão os que fazem propaganda deslavada de si mesmos, na base do “vejam meu mais recente e maravilhoso trabalho”, ou, na outra ponta do novelo, se identificam como “esquizofrênicos que odeiam os amigos”. E como têm amigos!
Há um descompasso imbecil entre o que esta gente é e o que procura ao se imiscuir em listas que nada têm a ver com elas, como, por exemplo, se plugar num perfil de cultura sem saber ao menos fechar duas frases, nem mesmo para reproduzir anedotas infames ou explicar um link que julga inteligente. O pior é que, seja na pressa, seja na falta de critério, esta turma vai sendo replicada redes afora, espalhando seu misto de má fé, ignorância e burrice, e envolvendo até gente boa, inteligente, articulada.
Mais impressionante é ver “eventos” – e como há eventos! – que se fingem importantes, conseguem até mesmo patrocínios que muito fazedor de cultura de boa qualidade não consegue, tudo com base na troca. Fico estarrecida ao ver o troca-troca de baixo calão entre gente que é “promotora” de atividades “culturais” e até “beneficentes” e enumera os mecenas com a naturalidade dos pilantras: sem culpas.
A arte de enganar, de ganhar notoriedade com o verniz da falsa competência, quase sempre, a inteligência alheia e, muitas vezes, a sede do outro em pegar carona na malandragem, esta é a arte do século 21 estampada, para quem quiser ver, nos facebook, twitter e blogs da vida. Pelo menos aqui em Porto Alegre é assim. Pobreza isso tudo. De parte a parte – quem vende e quem compra. Como dizia meu ex-colega de Faculdade de Comunicação Jayme Gargione, faz mais de 30 anos, “o Brasil não é pobre porque não tem grana, é pobre porque não teve Idade Média”. Bem dito!
