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A gramática — lógica e frescura

Certo, eu tenho minhas implicâncias. Me recuso a escrever ou falar dir-se-ia, por exemplo. Boto os pronomes onde me dá na veneta, ou melhor, …

Certo, eu tenho minhas implicâncias. Me recuso a escrever ou falar dir-se-ia, por exemplo. Boto os pronomes onde me dá na veneta, ou melhor, onde me parece que soam melhor, seja ou não em começo de frase. Quase nunca levo em conta a diferença entre ter e haver. Grande parte dos acentos me parece desnecessária, como em quês e porquês. Acho a colocação do hífen mais misteriosa que o sentido da vida. Acho impossível dizer eu lhe amo — o “tu” está em franca decadência, mas o “te” permanecerá aliado ao você. Mas botar vírgula entre sujeito e verbo ou mandar pra cucuia os plurais e as concordâncias? Peraí. Quando a gramática fica de frescura ou defende monstruosidades sonoras, apoiada por uma lógica das mais marotas, tudo bem: pau nela. Mas quando há bom senso, eu obedeço piamente.

Plantas carnívoras

Por causa dos desenhos animados, se pensa nas plantas carnívoras com um guardanapo enrolado no pescoço, garfa e faca em punho e uns dentões deste tamanho. Mas a verdade brutal é que as plantas carnívoras se satisfazem com um mosquitinho por meses. Tenho a impressão de que, mesmo decepcionados, bem no fundo as coitadas alimentam nossos pesadelos. Alimentam? Hummm. Segundo os psicanalistas, o medo primordial é o medo de ser devorado. Então me pergunto, o que seria mais horroroso, ser devorado por um monstro ou por uma planta? Acho que meu voto vai para a planta.

Prêmio

O melhor prêmio de literatura no Brasil é o São Paulo. Digo o melhor porque é o que paga mais, duzentos mil reais. Quanto ao prestígio literário, sei não. Este ano, encabeçando a lista, está Adriana Lisboa, uma das escritoras mais perdidamente apaixonadas por adjetivos e metáforas que já vi, o que não é pouco, garanto. Dou um exemplo da prosa brilhante dessa moça: um cachorro olha para alguém com um sorriso canino. Sorriso canino é o que eu tenho sempre que me lembro do velho Nabokov, que achava que noventa e oito por cento do que se chama cultura não passa de uma farsa burlesca.

Ernesto Sábato

Os admiradores do Sábato, pra nos esmagar com a inteligência do ídolo, dizem que ele foi físico nuclear e que desenvolveu projetos importantes. Tudo bem. Mas esquecem que ele acreditava em astrologia.

Confissões

Andei comentando aqui a opinião de gente que acredita na inocência dos Nardoni porque não confessaram o assassinato da filha. Qualquer policial ou advogado criminalista sabe que isso não quer dizer absolutamente nada, porque os criminosos muitas vezes não só não confessam como mentem sob juramento até pra mãe, ou pra si mesmos. Mais raras são pessoas que confessam crimes que não cometeram. Mas elas existem. Quer dizer, é preciso ter cuidado com a vida — ela vem sem bula e não é tão simples como nos contam as novelas das seis, de preferência as de época.

2666

O contista Sérgio Sant’Anna diz que o romance do Roberto Bolaño é um dos melhores que ele leu na vida. Coitado, como leu porcaria.

Assistindo os Simpsons

Aula de ioga. Professor manda Margie ficar de quatro, com o bumbum pra cima. Margie quer saber que posição é aquela. Professor: “A posição do contribuinte americano”.

Esta posição não te parece estranhamente familiar, caro compatriota?

Autor

Ernani Ssó

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