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Chega de malas

Coisa maravilhosamente democrática é a internet. E, em especial, as redes sociais. Não importa se alguém tem grana maior que o Eike Batista, se …

Coisa maravilhosamente democrática é a internet. E, em especial, as redes sociais. Não importa se alguém tem grana maior que o Eike Batista, se é tão brilhante quanto o Ferreira Gullar, se é bom de escrita como a Danuza Leão ou marqueteiro como o Luciano Huck. Basta saber mexer no computador, e qualquer criatura tem direito a criar seu perfil. E a defender, para o mundo inteiro, suas ideias. Por preços módicos.

Faz muito tempo, apareceu no meu MSN (que não uso mais) um marroquino. Estranhei demais o surgimento, mas a conversa era tão boa, e a chance de conversar em francês com alguém me é tão cara que passei mais de um ano trocando informações com ele, de quem esqueci o nome. Era um garoto, dizia ser garçom de um restaurante e namorava uma garota da França. Claro que tudo pode ser mentira. Mas este diálogo só se sustentou porque ele tinha consistência, mesmo sem grandes rasgos filosóficos, sociais, emocionais: era bom conversar com meu amigo muçulmano de Marrakesh, que me contava do ritual de sacrifício do carneiro por ocasião do Aïe el-Kebir e eu calava, constrangida em dizer o quanto considero absurdo matar animais em honra de algum deus ou profeta.

Lembrei do meu amigo virtual hoje quando me irritei com o Facebook e a banalização da amizade ou da palavra amizade. Tenho visto aumentar apavorantemente o número de gente que quer ser adicionado em qualquer conta pela simples razão de fazer sua lista crescer.  Por um bom tempo, fui aceitando todos os que batiam à porta de meu perfil. Mas, agora, cansei. Enchi meu saco. Não dou mais nem o benefício da dúvida a quem acho muito desonesto ao esconder suas informações básicas, ao mesmo tempo em que vem pedir abrigo no meu cantinho. É como se um desconhecido total viesse me visitar com a certeza de ser aceito. Não. Não aceito estranhos na minha vida, um mínimo de referências exijo para, ao menos, ver a possibilidade de travar um conhecimento. Então a troco de quê vou ser complacente com alguém que pode ser a mentira da mentira, um nome falso atrás de foto falsa e falsos posts.

Também o conteúdo das conversas vem me tirando a paciência. Não que eu queira falar de Kafka a cada postagem, ou ter uma discussão importante sobre sociologia de segundo em segundo. Mas a frescurada está demais. É um tal de escrever por escrever, de botar perguntinhas bestas que jamais vou responder, mas tenho de gastar meu tempo deletando, de fotos de intimidades que ultrapassam todo e qualquer bom senso, e, pior: as propagandas de contrabando.

Ah, isso sim me deixa emputecida: é empresa de assessoria de fundo de quintal que nem site tem (o link leva pra nada), produtoras de funk, falsos poetas e escritores, marquetagem de última categoria que terminam na minha página porque alguém, preguiçosamente, apertou no “confirma” em vez de dar uma boa olhada no que estão lhe oferecendo. A internet, como já disse outras vezes, é uma bênção e, pra uma senhora advinda da máquina de escrever, fazer parte deste tempo é um privilégio. Mas esta democracia virtual também tem limite, em especial para os oportunistas, os chatos e os mal-intencionados. Estes, não têm mais vez ao menos na minha vida online. Na vida real, é um pouco mais difícil prevenir sua presença. Mas a gente consegue também isso.

Autor

Maristela Bairros

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