Tem várias maneiras de ver um acontecimento desses. Um deles, o de uma pessoa ter nascido e crescido em condições adversas tanto social quanto financeira mas ter vencido tudo, aprendido por conta própria até o que não pode ter na escola e estar lúcida e saudável tanto quanto quase um século de vida permite.
Outro jeito de comemorar 83 anos é pensar na quantidade de lembranças armazenadas, de memórias sobrepostas e que, encantadoramente, ainda permanecem e são compartilhadas, de acordo, claro, com o humor, com o sol ou as nuvens, bem de acordo com a dona da idade.
E tem o lado deste poliedro existencial que trata do afeto, do que chamo caixa do aconhego, sem a qual nenhum ser vivo sobrevive, nem mesmo nasce. É o local para onde tudo converge e de onde tudo sai, se expande e gera e regenera vida. E minha mãe se firma, acima de tudo, nesta face.
Filosofices à parte, dona Maria Luci Bairros, née Machado de Azevedo, mesmo reclamando do espelho, segue com vento a favor. E, também meio que na força, lavou as porcelanas Renner que ela chama de “casquinhas de tão fininhas” decoradas com flor azul-royal, botou uma linda toalha branca na mesa e esperou os não convidados. Sim, porque, para ela, convidar é oferecer festa e aquela mesa, com torta de maçã, bolo mármore e tortinha de limão, tudo da Max, que ela adora, não pode ser classificado de festa! “Quem lembrar, vem”!
E ali estiveram tia Eda, minha nuvenzinha que passeia na terra, a mais cachorreira de todas as tias, aquela que aparece em ilustrações de contos de fadas: alta, magra, roupas até o tornozelo, malhas até os joelhos, fala mansa, suave, até na indignação. Depois, o irmão mais novo, Luis Carlos, pai de Aline e Luciana, poeta, debochado, nosso cantor e assobiador ímpar, que nos presenteou com a declamação de uma paródia a Nossa Senhora do Roberto Carlos, para orgulho das irmãs.
Depois, chegou Leoni, mãe de Alessandro, Helena e Isabel, que, faz alguns anos, decidiu que não ia envelhecer simplesmente: faz o que ela chama “atividades”, lá no IPA, ou seja, dança, canta, interpreta. Chegou afogueada, sem uma peça de lã, cheia de calor, porque, claro, estava vindo da atividade, oras!
Helena e a outra prima, Maria José, chegaram em seguida, vindas do trabalho, e trouxeram mais do que o tio e as tias haviam trazido: risos, alegria, amor. Fizemos fotos, sim. Pena que minha prima Maria, nossa pianista que me fazia sonhar ao tocar Le Lac de Come, tenha tido de voltar correndo pra casa com tia Eda, nem tempo pra fotografar deu.
Há tempos eu não vivia um aniversário assim. Faltaram irmãs: Neusa, porque não teve tempo de se esquematizar, esta minha tia, mãe da Salete, que me deu tantas roupas lindas quando eu era menina; a Geni também não foi, logo ela, minha andeja, minha relações-públicas familiar, que não conhecia canseira nem distância, mas falamos nela o tempo todo, lamentando sua ausência. Tia Lila, mãe do Eduardo e da Elite, também não pôde ir, porque a fantástica fábrica de cupcakes que elas instalaram, a Ronk’s, está a mil. A gente sentiu falta do som da risada que é só dela, que parece uma música de soprano, mas tudo bem, daqui a pouco ela aparece. Faltou também o tio Neno, o mano mais velho, pai do Ricardo (que não vejo tem 30 anos ou mais), o bonitão da trupe, companheiro de bailes das irmãs naqueles tempos de pele lisa, coluna reta e energia plena. Ele também tem justificativa: está cuidando da saúde, se reerguendo e tal.
Sem falar no outro lado da família, o de cunhados e cunhadas, que esqueceram, como eu esqueço, do aniversário da dona Luci. Vou multar um por um. Afinal, daqui a 83 anos pode ficar difícil reunir todo este povo ali no apartamento térreo da vila do IAPI onde se desenrolou o sarau. E eu, oportunista, ali me abasteci de mais coragem, alegria e força pra ir tocando a vida.
