Antes, vamos limpar o meio de campo: nunca tive simpatia pelo Bin Laden. Não tenho simpatia por terrorista nenhum, de esquerda ou de direita. Se é terrorista, está um pouco além delas, me parece.
Minha simpatia por políticos é moderada também, bota moderada nisso. Mas dentro dos meus limites, o Obama tem ou tinha minha simpatia. Não a minha fé, que por sinal não existe, mas simpatia, talvez até alguma torcida contra o inevitável. Trata-se de uma bruta fraqueza minha, como tantas outras.
Então devo comemorar o assassinato do Bin Laden? Os Estados Unidos se dizem uma democracia, mas se você responde a violência com a violência, você se coloca no mesmo nível, ou não, já que o estado tem muito mais poder. Uma democracia deveria responder com a justiça, digamos candidamente. Responder com a força bruta pode ser ótimo pra filmes de baixo orçamento e pra gente esquentadinha, mas é recuar para tempos anteriores a qualquer lei, fora a do mais forte.
Trata-se de aritmética simples. Os americanos saíram às ruas pra comemorar e já estão comprando armas, à espera da vingança. Ela virá. Aí, em seguida, os americanos vingarão a vingança. Assim vamos nós, de comemoração em comemoração.
Julgamento
Qualquer pessoa, por mais psicopata que seja, merece julgamento. A função da defesa é a crítica das provas, como me disse um advogado. A opção dos gringos pela execução sumária levanta uma velha questão sobre a democracia deles: todo mundo é inocente até prova em contrário, desde que seja americano, de preferência da classe média pra cima.
Escritores maiores
Cada vez que morre um escritor, não interessa o calibre, basta ser conhecido, a gente lê nos jornais que “morreu um dos mais importantes escritores vivos”. Ainda não perdi a esperança de ler que morreu um dos mais importantes escritores mortos. Pra minha alegria ser completa a frase devia ser: um dos mais importantes escritores mortos do mundo. Mesmo que nesse caso já fosse do outro.
Sobre heróis e tumbas
Li por aí que críticos consideravam o romance do Ernesto Sábato, morto há pouco, o melhor do século vinte. Pena que não deram o nome desses críticos. Não sou a favor de linchamentos, menos nesse caso. Estou cheio do melhor do ano, da década, do século. É a mulher mais linda, o melhor restaurante, o filme, o livro, o disco, o diabo a quatro. Trata-se de uma empulhação tão grosseira que até os “jornalistas” da Caras deviam ter vergonha na própria. Como a objetividade é como Deus ou as notas de cinco mil dólares, que dizem que existem mas ninguém viu, a gente devia parar de fazer papel de idiota em público, mesmo que as cotas pra deficientes nos protejam.
O próprio Sábato, um dos escritores mais egocêntricos — olha que a parada é dura, meu nego —, talvez dissesse que “O processo” e “O castelo” do Kafka são melhores, ou “A consciência de Zeno”, do Ítalo Svevo, digamos, apenas pra dar a largada. Ele teve de admitir que a melhor coisa que a Argentina produziu em matéria de literatura foi Borges, mesmo que em seguida ficasse procurando defeitos com uma lupa em cada linha do velho.
Borges e Sábato
Borges, num momento de fraqueza, entrou para a Academia Argentina de Letras, mas logo percebeu o erro. Dizia que a única coisa que prestava na Academia era o café, que era colombiano. Um dia convidou o Sábato pra entrar na dita. Sábato não aceitou e perguntou por que ele fazia o convite, já que era evidente que os motivos não eram literários. Borges disse que esperava que Sábato instalasse o caos por lá.

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