Numa crônica, na revista Cult, Joca Reiners Terron diz que “A simpatia pelos vitoriosos nunca foi meu forte. Meus heróis literários sempre foram os fracassados”. Segue, mais adiante: “Super-Gabriel García Márquez é um escritor que atingiu a imortalidade em vida, e não há nada mais antipático do que isso. Afinal, escritores têm de padecer à míngua, comer a asinha magra do arroz com pollo colombiano (sem direito a repeteco), e não se fala mais nisso. É o que esperamos deles, não? Que sofram, pois não há literatura com magnitude sem penúria física, e o supra-sumo da lava vertida pelo cérebro, a imaginação, somente borbulha com a fervura atroz das más experiências”.
É uma velha ideia a de que o gênio é maluco e o artista, o bom artista, tem de passar fome. Ideia que talvez tenha nascido de papais preocupados. Ou um modo de medíocres se conformarem. Ou de sofredores terem uma boa impressão de si mesmos.
O mais gozado é que basta meia dúzia de exemplos pra dar o que pensar. Sófocles e Aristófanes foram célebres e não consta que tenham passado um dia sem comer. Shakespeare além de tudo foi um empresário de sucesso. E Borges? E Cortázar? Até o patriotismo serve de exemplo: Machado de Assis, agarrado ao seu emprego público feito marisco na pedra, passou fome? Drummond? Manuel Bandeira?
Não há literatura sem más experiências, certo. Mas quem disse que as más experiências se limitam ao almoço e à janta? Se o problema fosse o almoço e a janta, um Henry Miller seria o melhor de todos e as favelas um manancial de grandes escritores.
Simpatia
Não sinto simpatia pelos vitoriosos porque são vitoriosos nem pelos fracassados porque são fracassados. Minha simpatia depende de outras coisas. Pra não ir mais longe, depende da forma como o sujeito encara o mundo. Hammett indo em cana apenas pra não dar o braço a torcer tem toda a minha simpatia, por exemplo. Quanto à minha admiração pelos livros dos dois times, apenas uma coisa me comove: se foram bem escritos. Sem falar que esse papo de bem-sucedido ou de fracassado vareia: como escritor Ítalo Svevo morreu como um fracasso, mas me parece que “A consciência de Zeno” é um dos livros mais bem-sucedidos de todos os tempos.
Há alguns casos mais raros em que o sucesso é tanto literário como bancário, mas duvido que a simpatia dependa disso apenas. Veja-se Borges. Em certa época teve a simpatia da direita e o ódio da esquerda. Depois as coisas se equilibraram. Vitória da literatura? Talvez mais das entrevistas do autor, do seu ataque tardio aos militares, do reconhecimento de seu erro. É complicado admirar os livros de um canalha e menosprezar os de um bom sujeito, mas há canalhas talentosos e há bons sujeitos medíocres (aliás, como há). Taí uma pendência que devemos resolver antes do fim da adolescência.
Culpa estranha
Joca de novo: (…) o “maior pecado de García Márquez (…) leva o nome de Isabel Allende. A açucarada romancista chilena consegue ser mais triste que a cópia xerox com toner no fim que o escritor colombiano produziu de si mesmo (e vem automaticamente se copiando nos últimos trinta anos)”.
Sim, claro, Isabel Allende é indefensável, todos sabemos. Mas Joca levanta uma questão interessante: até onde um escritor é culpado pelos crimes cometidos por seus imitadores? Porque, pra começo de conversa, acho impossível impedir as imitações. Mesmo um Borges, homem de uma inteligência danada, foi imitado. Aí é que está: quem se arriscou a seguir os caminhos abertos por essa inteligência? Quem alcançou seu humor, sua ironia, sua leveza, sua profundidade, sua concisão? Não vi muitos. Vi mais foi neguinho boiando na superfície, nas manias do Borges, em alguns truques, em algumas abordagens, nos temas. É sempre assim, não? Como fica a culpa então? Talvez a culpa comece em outro ponto: no autor incentivando a carreira de seus imitadores em entrevistas, em recomendações pra editores, em prefácios e orelhas.

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