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Minha cidade e eu

Dia desses, ao buscar os resultados de exames clínicos de rotina, flagrei a atendente do laboratório conversando ao telefone e insitindo com quem com …

Dia desses, ao buscar os resultados de exames clínicos de rotina, flagrei a atendente do laboratório conversando ao telefone e insitindo com quem com ela falava em ir ao show do teatro Por do Sol em homenagem ao aniversário de Porto Alegre. Quando desligou, talvez para se justificar por estar jogando conversa fora em horário de trabalho, a moça simpática me disse que seu entusiasmo se devia principalmente à presença de Frejat no tal show e que ela sempre acompanha as atrações gratuitas de cultura da cidade. Ponto pra ela, que faz muito mais que eu, atualmente uma acomodada que prefere ficar em casa lendo, na internet ou vendo canal noticiário na TV a ter de enfrentar coisas como flanelinhas e afins como preço de saídas.

Nunca fiz uma homenagem a Porto Alegre. Ao contrário, me pego, repetidas vezes, falando mal desta cidade em que nasci e sempre vivi. Não que desgoste daqui – na verdade, odeio coisas pontuais daqui, como o verão peguento, o absurdo que considero a vida “social” há tempos se dividir entre a tal Calçada da Fama e a Cidade Baixa,  e a maldade feita com os cinemas Guión, obrigados a fechar portas em suas filiais fora do Centro Nova Olaria  porque o público fora dos block busters encolhe cada vez mais. Também vivo citando Caio Fernando Abreu que chamou Porto Alegre de cidade-carroça não sem razão e por várias razões.

Esta semana, num papo rápido com o colega jornalista Luis Antonio Giron, que há décadas vive em São Paulo, falei sobre Porto Alegre ser uma província e ouvi dele uma tocante declaração de amor e saudades a este lugar. Giron é um dos tantos que daqui se foram porque, acredito eu, encontrou “lá fora” mais oportunidade de crescimento e maior reconhecimento. E, ao exportar boas cabeças e competências, Porto Alegre vai empobrecendo.

Há os que vão e voltam, depois de anos longe daqui, nem sempre felizes com o retorno, como um velho amigo que se diz “exilado” em Porto Alegre sempre que bota os pés na terrinha, mesmo que não consiga simplesmente deixar de vir. E os que nunca mais, a não ser para uma visita, aqui retornam, sem culpas, sem grandes sentimentalismos.

Eu, nascida no Hospital São Francisco, me questionei muitas e muitas vezes sobre não ter ido para outro lugar e nunca vou saber como teria sido, porque, a estas alturas da vida, com certeza não vou deixar este paralelo sul em definitivo. Meu filho já foi, minha filha apenas adiou a partida. Fico eu, que vivi 25 anos na vila do IAPI e que morei em seis pontos diferentes da capital, nem sempre de boa vontade. Queria, mesmo, é morar em Paris. Mas isso é privilégio de poucos nascidos neste Brasil, alguns por mérito, outros por simplesmente ter mais grana que outros.

Autor

Maristela Bairros

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