Entre todos os candidatos à Presidência que o Brasil já teve, o mais radical foi a Lívia Maria, alguém lembra? Ela concorreu no ano em que o Collor ganhou e prometeu amor. Parece que ninguém se deu conta da audácia da proposta. Uma pena.
Um governo com amor certamente começaria com a reprise do filme Love Story e o desarmamento das Forças Armadas. Em seguida, se enviariam flores aos banqueiros internacionais. O Ministério da Educação se chamaria Ministério da Educação Sentimental, ou mesmo Sexual, por que não?
No programa de rádio Hora do Brasil, a presidente faria consultas sentimentais, num quadro chamado “Conversas de Travesseiro”. Em vez de “Trabalhadores do Brasil”, como Getúlio Vargas, ou “Brasileiros e brasileiras”, como José Ribamar Sarney, ou “Minha gente”, como Fernando Collor, a Lívia Maria diria: “Queridos”. No final dos discursos, nada de tenho dito, mas a despedida da Xuxa: “Beijinho, beijinho, tchau, tchau!”
A inflação seria combatida com medidas drásticas: o Pacote Vênus. Em vez da ganância dos empresários, atravessadores e marajás, troca de beijos e afagos com o povo. O dinheiro trocaria de nome mais uma vez. As notas do Cupido seriam cor-de-rosa, cheias de ramalhetes de miosótis e rosas despetaladas. No centro, não um patriota, mas Romeu e Julieta na cena do balcão, mais um acróstico ou um poema de J. G. de Araújo Jorge. Não seria uma moeda forte, como o dólar. Mas seria singela.
O Ministério da Saúde receberia verbas para pesquisa da dor de cotovelo. A construção civil, para investir carinhosamente em motéis. A Polícia? Nada de batidas nos morros. Faria a corte. Sem falar que grande parte do seu trabalho seria reconciliar casais de namorados. O menor carente? A Lívia Maria seria uma mãe para ele. O salário mínimo? Pago com ternura.
O amor, como solução para tudo, não é uma idéia nova. Está na Bíblia e nas respostas das misses. Mas pela primeira vez, que eu sabia, aparece na política. Não sei bem o que isso significa. Talvez que o Brasil não seja um país sério. Mas isso é sério. Puxa, se é sério! Talvez o problema seja outro. Talvez o Brasil seja um país louco.
Recital
– Que anda lendo?
– Poesia. Quer que recite uma?
– Manda lá.
– Ouça:
2 xícaras de aipim cozido amassado
1 ovo
1 colher de sopa de manteiga
3 colheres de sopa de salsa
cebola e cebolinha
ba
ti
di
nhas
Sal a gosto…
Misture tudo! Tudo!
Faça pequenos bolinhos e frite em óleo de soja quente como o inferno ou meu coração
– Que beleza!
– Maravilhoso esse poeta. Simples, direto. Estranha coincidência: isso só acontece com quem tem o que dizer, como observou o outro.
– Grande crítico, o outro.
Tesouro da juventude
– A Verdade existe.
– Sim, tá no “Tesouro da Juventude”.
– Página 83.
– Numa nota de pé de página.
– Mas numa errata diz que a nota é da página 105.
– Tá errada a errata.
– Em alguns exemplares não.

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