A Cezar Lima
Num velório naquela hora da noite em que até a viúva começa a bocejar. Acostumamos com o cheiro sempre desagradável das velas e das flores, não chega mais ninguém e se esqueceram de trazer cafezinho. Faz frio, há um silêncio de cidadezinha do interior com vagos latidos nos subúrbios, os bares fechados, vida apenas no último inferninho onde o vampiro de Curitiba ronda sua angústia. Ansiamos pela manhã, a chegada dos que vêm nos render ao lado do caixão, um mate bem amargo, a cama, estar vivos sem remorsos, sem dívidas de delicadeza. Mas a noite se arrasta.
Nessa hora pastosa, um velho deu com uma balança de enfeite sobre a cristaleira. Uma balança com mostrador redondo, branco, numerado de preto, menos o zero vermelho do centro onde o ponteiro marca o peso do ar. O velho, distraído, puxou um desses relógios que se ganha de herança: de prata, pendurado na ponta de uma longa corrente presa ao colete. Olhou para ele atentamente, depois o levou ao ouvido com o cuidado que alguns velhos e crianças têm pelas coisas que não compreendem bem, escutou o imperturbável coração suíço, olhou outra vez para a meia-noite da balança e disse com uma desilusão resignada:
— Esquisito, nunca adianta…
Reflexão com dor
Gosto de ver os modos de quem enriquece com a grana da gente. Apenas os que vivem da estupidez dos outros, acho, levam a humanidade realmente a sério. Usam camisas brancas impecáveis, anel de formatura e uma cara calma, uma cara de interesse pelo que dizemos, que nos comove, nos conforta, nos faz sentir importantes e nos impede de ouvir a máquina registradora dos cérebros deles funcionando: as de dez no compartimento das de dez, as de cinqüenta no das de cinqüenta, as de cem no das de cem.
Tomando a palavra
Era a chegada do fogo simbólico. O prefeito se adiantou às autoridades civis, eclesiásticas e militares. Tinha escrito e decorado o discurso. Olhou o microfone, respirou fundo, fez um gesto altaneiro para a multidão de colegiais em posição de sentido e disse:
— A Pátria!
Fez uma pausa. Os últimos murmúrios cessaram. O prefeito inflou o peito de novo e aí foi aquele branco. Para ganhar tempo, repetiu, mais alto e mais forte:
— A Páááááááátriiiiiaaaaa!
Os colegiais, como sempre, esperavam que tudo terminasse. Mas o resto, pelo tom de Deus trovejando coisas do céu municipal, esperava no mínimo a reencarnação do Rui Barbosa. Mas as mãos do prefeito — apalpando discretas os bolsos do terno azul-marinho — frustraram essa esperança no espiritismo e na retórica. Com a voz começando a tremer, o prefeito tentou ganhar mais alguns segundos:
— A Pá-tri-a.
Em seguida foi o pânico: o prefeito enfiou as mãos nos bolsos interiores duas ou três vezes. Quando enfim se convenceu de que tinha deixado o discurso noutro terno, ficou quieto um momento: um fantasma tentando ouvir o silêncio do outro mundo. Mas de repente os braços caírem moles. O rosto gordo se cobriu do suor gelado da febre e de uma brancura suja de verde. Balbuciou quase inaudível:
— Tenho dito.
Foi muito aplaudido.
Novíssimo testamento
Deus existe. Mais informações no guichê ao lado.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial