Como quase todos os brasileiros, comecei a ler Mario Vargas Llosa nos anos setenta. Sempre gostei dele, até reli vários livros e considero “Conversa na Catedral” um dos grandes romances latinos e não só latinos. Mas nunca quis ser Mário Vargas Llosa quando crescesse.
Uma vez Paulo Bentancur, que implica com ele, me perguntou meio surpreso: “Por que você relê esse cara?”. Eu disse: “Ora, quero aprender. Quando eu ficar velho e não tiver mais nada pra dizer, ainda poderia escrever como ele”. Maldade minha? Inveja? É menos simples: acho admirável o domínio técnico do Llosa, o poder de organizar painéis vastos e complexos, a clareza da prosa e a sedução de uma boa história. Pouca gente tem isso e no grau que ele tem. Mas todo esse domínio técnico abafa, às vezes anula, uma coisa que me parece preciosa: as irrupções irracionais que incendeiam as grandes ficções — incendeiam e são, ao mesmo tempo, os alicerces delas. No caso do Llosa, me parece que apenas “Conversa na Catedral” e “A cidade e os cachorros” têm esse fogo.
Se leio Dostoievski, por exemplo, tenho a impressão de que ele entrou na arena com os leões. Não há garantia de que sobreviva. Se sobreviver, vai sair todo arranhado e mordido. Se leio o Llosa, tenho a mesma impressão que me dão os domadores de circo. Há algum perigo? Certamente. Mas os leões obedecem ao chicote, sentam no banquinho e rugem na hora certa. Está tudo tão sob controle que perde um pouco da graça, não?
Política, a marvada política
Nada do que eu disse foi ditado por motivos políticos. Estou pouco ligando para as opiniões políticas do Llosa ou as do Cortázar, digamos, para dar o exemplo oposto. Inclusive me dá nojo ver gente elogiar os piores contos do Cortázar apenas porque são denúncias de ditaduras. Ou ver gente desprezando um romance como “História de Mayta” não por motivos literários, mas porque não dá colher de chá pra certa esquerda, como se o dever da literatura fosse examinar apenas as fantasias grotescas da direita. A literatura como campanha publicitária de um partido tem um pequeno problema: não é literatura.
Engraçadinhos
Li críticos que consideram os primeiros livros melhores e dão a entender que a decadência do Llosa se deve à virada política. Eu também acho os primeiros melhores, mas o Llosa decaiu como escritor porque perdeu o fôlego, coisa bastante comum na natação e na literatura. É simples assim. O mais divertido nisso é que o próprio Llosa considera seu melhor livro justo “Conversa na Catedral”, a implacável radiografia de uma ditadura de direita. O que acontece é que o Llosa não é tão bobo como muita gente deseja.
Viradas
Li, na revista “Ñ” do jornal “Clarín”, um crítico dizendo que há duas opções de mudança ideológica: a do Cortázar, que virou pra esquerda, e a do Llosa, que virou pra direita. Modestamente, me pergunto: não dá pra virar pra lucidez? Me parece bastante sensato não fechar os olhos aos erros de ninguém. Aos acertos, tão raros, também.
Um escritor não é o chefe de torcida de um time de futebol. Ele tem de estar atento às pessoas — e abaixo da casca ideológica, as pessoas são todas muito parecidas e, pior, seus demônios também. Se o sujeito quer viver em preto e branco, pra mim tudo bem, acontecia muito nos primórdios do cinema. Mas, por favor, não venha me encher o saco.
Nobel
Exemplos próximos: Borges, Cortázar, Onetti e Drummond não levaram. Quer dizer, na maioria das vezes prevalecem os motivos políticos ou, vai ver, até a loteria. Seja como for, o Llosa merece literariamente o prêmio.

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