Acabo de ver Geraldo Vandré na entrevista a Geneton Moraes, na Globonews. Velhinho, sim, 75 anos. Mas nada do abatido que tantos querem, tampouco incoerente, depressivo, o “castrado” pelo regime militar que se espalhou por aí. Muito lúcido, debochado mesmo quando, lá pelas tantas, pede ao repórter que encontre o vídeo do festival da canção que premiou a conveniente Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, em detrimento de sua contundentemente simples Pra não Dizer que Não Falei de Flores/Caminhando, que serviu e tem servido à manipulação que Vandré aponta em seu sereno depoimento.
Daquela noite de 1968, quando o público vaiou sem dó a escolha regada a medo dos jurados, só ficou a voz de Vandré, defendendo a concorrente vencedora, com uma frase profética: “A vida não é só festivais”.
Também não há sinal visível, em toda a internet, da declaração que o Jornal Nacional levou ao ar, em 1973, de Vandré alegando que nunca foi torturado. Essas imagens devem estar guardadas em algum bunker, junto com as provas de atividades de gente que esteve nos dois lados das ideologias do período militarista inaugurado em 1964. Ou tudo isso pode estar destruído para sempre. Quem sabe, nada fala, não abre nada. Nem sobre Vandré, nem sobre o resto.
Vandré tem razão: o Brasil está “massificado”, na pior acepção do termo. Não há lugar para ele, tampouco para os que não se deixaram engolfar na massa sovada pelo trabalho meticuloso de cooptação dos que se adonaram do poder e recheada com acepipes de fácil digestão.
Quando indagado sobre o que lhe teria acontecido, Vandré diz que ficou “fora dos acontecimentos”. Certamente, por essa e por outras declarações do tipo, foi e é apontado como louco, alienado, quiçá ainda amedrontado, em especial por quem o usou e jogou fora, como bagaço, cantando sua canção como hino e, em seguida, o renegando por ter Vandré assumido suas crenças.
Não importa. O que ele criou, ninguém apaga. Mesmo que nunca mais ele suba ao palco, nunca mais pegue o violão nem nos deixe mais ouvir sua voz rouca, e morra escondido atrás de um boné velho. Da minha memória, e de tantos, ninguém apaga o Geraldo Vandré moreno, vigoroso, lindo, apontando o caminho. Profeta antes de seu tempo.
“Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não”.
É isso aí, Vandré.
