Dona Zeca e Dona Vicina andejaram por este Rio Grande do Sul enquanto iam parindo a prole: 13, cada uma. De cada, 11 sobreviveram. Mestre de obras, o marido de uma, tropeiro, o da outra. Vida duríssima! Parteira, era luxo. Dona Zeca teve quase todos os filhos sozinha, uma garrafa para soprar e se livrar da placenta. Porta aberta, só depois da criança limpa e enrolada nos cueiros. Sozinhas, as duas. Mesmo rodeadas de filhos, eram sozinhas. Morando em ermos, chão de terra batida, polenta em lugar de café da manhã. Muitas vezes, sopa de tempero verde para aplacar a fome. Sozinhas, mas nunca solitárias.
Gostavam de histórias água-com açúcar e poesia, as duas. Dona Vicina, já velhinha, entre um cochilo e outro na cadeira de balanço forrada com tapete de trapinhos que ela mesma costurava, declamava versinhos e ria, suavemente, o cabelo de bugra bem curtinho, mal e mal denunciando uns branquinhos. Amava plantas, mão mágica para mudas que ela ia fincando na terra, em latas de azeite que ia pendurando nas paredes dos chalés em que morou, ao final da vida.
Minha mãe, hoje com 82 anos, enfrentou barro e poeira desde os 7 anos, para ir à escola, quilômetros distante. Nas mãos, um toco de lápis e um bloco feito de papel de pão costurado com linha grossa e a cada final de ano apagado para novo uso. Com 7 anos, começou a trabalhar, numa fábrica de caixas de fósforos, paga em selinhos que trocava por uma maçã, uma ou duas bananas. Fitas e roupas novas, só no Natal, todo mundo com o mesmo tecido, Dona Zeca pedalando a máquina, depois de largar o cabo da enxada.
Meu pai, 82 idem, adorava ver a cara de nojo dos netos quando contava que esquentou os pés em merda de boi, no inverno gaúcho de muita geada e falta de sapatos. Carregava lenha nas costas, ainda pequeno, para ter direito a um pedaço de rapadura. Na foto de primeira comunhão, a barra da calça cheia de dobras lembra Carlitos, o cinto mal-ajambrado sobrando até metade da perna, pendente, o olhar contrito.
Nem meu pai nem minha mãe se queixa do que passou. Seo Waldemar e Dona Luci lembram com muita saudade, riso escancarado, aqueles tempos que nem o mais tocante filme de Fellini ou de Truffaut consegue reproduzir. E a falta que sentem das matriarcas, ambas amorosas no mesmo compasso de severas, boas de afagos e de chineladas! Ainda agora, tanto tempo sem elas, suspiram de falta e carinho.
Dona Zeca cuidou do seu time de futebol inteiro com tifo. Caiu depois que o último doente se recuperou, este rapa do tacho que ela teve depois dos 40 anos, lá na roça. Dona Vicina enfrentou, depois de madura, a mudança para a cidade, oportunidade de trabalho e vida melhor para os filhos, todos sapateiros na mesma fábrica que emprestava uma casinha em que a metade dormia na rua, por falta de lugar. Nunca vi estas duas mulheres falarem do passado com o travo da raiva ou da mágoa, tampouco da vaidade, da soberba.
Longevas, nos deixaram na alma um buraco imenso que ninguém vai preencher jamais. Histórias únicas e, ao mesmo tempo, iguais a de tantas de sua época, de um Brasil recém-feito República, cheio de revoluções que as obrigavam a esconder filhos no mato, as duas grandes guerras. Generosas mulheres! Vó Zeca, cada vez que saía da minha casa materna parava na esquina, virava-se e nos acenava, ela e seu lencinho de cambraia preso no cós da saia. Vó Vicina tinha sempre um presente, um bibelô, um vasinho com jibóia, um arroz com pêssego que só ela sabia fazer, ela e seu cheiro de talco, de banho recém-tomado, sempre.
Essas são as mulheres que me representam. Essas são as formadoras, as que merecem servir de diretriz e de norte para outras mulheres. Não são criaturas, são criadoras. Não pegaram em armas nem mesmo para defender a família em tempos de bandidagens. Nunca assaltaram, mesmo na crueldade da fome. Jamais pensaram em seqüestrar um ser humano, por mais vil que fosse ele, em nome de ideais ou crenças. Dona Maria José Machado de Azevedo e Dona Universina Rodrigues Bairros me representam. E a tantas brasileiras. De verdade. Com merecimento.
