Se a voz de povo é a voz de Deus, estamos fritos. O que o povo diz de asneira, minha nossa. Olha, talvez só economistas digam mais.
Andei pensando nisso porque, esses dias, numa viagem, fiquei impressionado principalmente com a teologia de para-choque. Minha conclusão ululou de obviedade: a fé não tem desconfiômetro. Os crentes só gostam de fazer perguntas se têm antes a resposta, ou pensam que têm.
Uma das frases mais populares é “Deus é fiel”. A quem? Se Deus foi fiel aos inquisidores, foi infiel aos inocentes que viraram churrasquinhos? Ou Deus passou a ser fiel mais recentemente apenas? Os crentes deviam estudar a evolução de Deus, para ver como Deus é criado à imagem e semelhança de cada época e sociedade.
Uma variação da fidelidade divina: “Muitos me seguem, só Deus me acompanha…”. O primeiro consolo para a morte: “Vou com Deus, se não voltar, estou com Ele!!!”. Não sei se notaram, mas poucas reticências e exclamações são justificáveis. Dá pra medir a escolaridade do sujeito pelo número de reticências e de exclamações. Escolaridade? Dá pra medir o QI.
“Deus sem você é Deus, você sem Deus não é nada…” Todo o sentido da vida respondido assim, num jogo de palavras, com reticências ameaçadoras desta vez. Mas, veja o avanço: sem Deus a gente não considera afirmação e argumentação sinônimos.
“Jesus é meu capitão, pois ele já mora no meu coração.” Trata-se de uma fixação militar ou é coisa de jogador de futebol? Se é uma fixação militar, porque não general? Se a patente foi escolhida apenas para rimar com coração, me sinto livre para usar reticências. Jesus é sempre muito citado como modelo, mas pouco, muito pouco imitado. Gostaria de vê-lo imitado principalmente na hora de chicotear os vendilhões do templo.
“Não me inveje, quando Deus quer é assim! Abençoado!” Então Deus quis mais para outros. Basta pensar no luxo do Vaticano. A lógica da vontade divina é de uma elasticidade assombrosa, mais do que a dos políticos justificando certas coligações.
“A fé em Deus me fais vence.” Imagino que o autor da frase se converteu bem depois de ter sido alfabetizado. Pena.
“Amo a vida sem temer a morte, tenho fé em Deus e não na sorte.” Essa frase aparece de muitos modos, mas aqui encontrou a formulação perfeita. A gente conhece esta gangorra: de um lado Deus, do outro o acaso. O acaso é dureza. Não exige fé, só que se aguente o tirão.
“Confie em Deus e não em candidato.” Por que não? Candidato nenhum se declara ateu. Até os ateus desconversam na hora da campanha. Por que os homens de fé não confiam em outros homens de fé?
“Deus abençoe as mulheres bonitas e, se tiver tempo, as feias.” As mulheres quase sempre são esculachadas nos para-choques. Quase. Mas há duas categorias que não escapam nunca: feias e sogras. Mesmo feias e sogras crentes.
“Deus cura, o médico manda a conta.” É fácil resolver isso: não ir nunca ao médico. Agora, se Deus fosse um grande curandeiro, não haveria carolas carecas, por exemplo. Nem falo em carolas impotentes.
“Deus dá o juízo e a pinga tira.” Imagino que haja aí uma alusão ao livre-arbítrio. Acho gozado esse negócio de livre-arbítrio. Nos tempos de Sodoma e Gomorra Deus era pau puro. De volta à evolução: lembro daquela ilustração que começa com um macaco segurando um galho e termina num senhor bonito, de cabelos ondulados.
“Deus é maior do que você merece.” Típico. Deus é amor, mas suas criaturas, feitas à sua imagem, são sempre vistas com desconfiança e desprezo. Talvez o barro usado na construção de Adão fosse de quinta categoria ou Deus, antes do famoso sopro, tivesse comido muito alho ou tomado umas e outras. Nem um bafo de onça explicaria um ser assim tão precário.
“Deus fez o mundo em 6 dias, não tinha ninguém perguntando quando ia ficar pronto.” Não entendi. Se não tinha ninguém perguntando, Deus poderia ter passado a limpo com toda a calma, não?
“Dirigido por mim, guiado por Deus.” Imagino que a “indústria da multa” seja coisa do Diabo.
“Eu só faço os furos, quem mata é Deus.” Mas não era Deus que curava? Estamos falando do mesmo cara?
“Enganar o próximo é fácil, difícil é explicar a Deus!” Quase sempre há uma ameaça implícita na ideia de Deus, um patrulheiro ideológico que está em toda parte e tudo vê. Mas é evidente que não cola. Veja a vida dos banqueiros, veja a vida dos políticos. Eu gostaria de ver uma explicação mais laica, com o delegado de plantão.
“Jesus salva!… passa para Moisés, que chuta e é gooolll!” Taí a prova: Deus é brasileiro.
“Se bicha fosse normal, Deus teria criado Adão e Ivo!” Então como se explica o alto índice de pedofilia entre seus servidores? Poderia se inverter o argumento, não? Os milhares de bichas provam que Deus não criou Adão e Eva. O livre-arbítrio, sempre usado como álibi pra livrar a cara de Deus dos horrores diários do mundo, é esquecido quando convém, coisa que não precisa do Freud pra explicar — uma cartomante basta.
“Se mulher fosse coisa boa, Deus teria uma!” Então por que criou Eva e não Ivo? Mas, pelo menos, encontrei outra frase que dizia: “A mulher foi criada de uma costela, imagina se fosse do filé mignon”.
Mas chega. Estou aqui gastando todas essas palavras por absoluta falta do que fazer.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial