Colunas

A fama de Hemingway

Acho triste que o autor de grandes contos e de um bom romance, “O sol também se levanta”, seja mais lembrado por uma novela …

Acho triste que o autor de grandes contos e de um bom romance, “O sol também se levanta”, seja mais lembrado por uma novela balofa, “O velho e o mar”. A história central de “O velho e o mar” é muito boa. Por que Hemingway teve que espichar daquele jeito, atulhando o texto com descrições e detalhes inúteis? Na verdade, isso é um pouco mais que triste: afinal, Hemingway não é o cara do estilo seco, direto, sem enrolação, econômico até a avareza? Talvez Hemingway estivesse esgotado e esperneasse. Mas esse esperneio era para seguir por uma direção diferente da de costume ou era para imitar a si mesmo? O certo é que tinha perdido o foco.

O sol também se levanta

Em geral o humor do Hemingway é dos mais truculentos. Não aqui. Bill, o amigo do narrador, é muito divertido e sutil. Não se diz nada sobre ele, mas temos a impressão de conhecê-lo. Isso me lembra o Borges comentando Joyce e Shakespeare. Shakespeare diz duas ou três coisas sobre um fulano e sabemos quem é ele, temos uma visão de toda a sua vida, somos íntimos. Joyce empilha detalhes páginas após páginas e no fim temos uma ideia bastante vaga de seus personagens.

Ainda o sol

Os diálogos do Hemingway me parecem fluentes, naturais. Mas a tradução, quando não é incompetente, é quadrada.

Paris é uma festa

Pouca gente vai concordar comigo, sei: acho “Paris é uma festa” um livreco de quinta. Além das distorções pra deixar Hemingway sempre bem na foto, foi escrito meio ao sabor das lembranças, com lacunas que só se explicam pela preguiça ou censura, esteja a censura a serviço do que estiver. Parece papo de boteco, quando ficamos pulando de um assunto pra outro, sem concluir nenhum. Eu preferiria mais detalhes sobre a formação do escritor em vez da primavera parisiense, ou os bastidores da escrita de “O sol também se levanta”, ou que a mulher do escritor parecesse uma pessoa, não a bonequinha linda e amestrada que se pinta. Coisas assim. Mas, claro, tem algumas páginas admiráveis.

Elegante lábio irlandês superior

Hemingway, numa das caricaturas mais maldosas que um escritor fez de outro, se sai com esta, ao falar de Scott Fitzgerald: “Gotinhas de suor tinham aparecido em seu elegante lábio irlandês superior (…)”. Fiquei à espera, mas não houve outras cenas em que brilhassem outros lábios superiores, elegantes ou grosseiros, irlandeses ou americanos, ou mesmo algum exótico lábio superior mongol ou esquimó. Também não há nada sobre lábios inferiores de nacionalidade alguma, elegante ou vulgar. Também não há nenhuma palavra para especificar em que condições Fitzgerald usava esse adereço irlandês. No máximo, em duas ou três ocasiões, é mencionado o queixo irlandês do escritor, mas sem muita ênfase, talvez porque Fitzgerald, como descendente de irlandeses, o usasse mais comumente.

O grande e generoso rio

Nunca fui pescador ou caçador fanático, mesmo tendo passado boa parte da infância e da adolescência na beira de rios ou metido no mato. Os ecologicamente corretos que me perdoem, mas eles nunca sentiram o gostinho de ver o caniço vergar ou de se aproximar de mansinho da caça arisca. Agora, me parece que não há necessidade da experiência direta para se gostar de um conto como “O grande e generoso rio”. Basta ficar em silêncio, com nossas opiniões em stand-by — temos um longo e árduo passado de luta pelo almoço. Maravilhosa a contenção e delicadeza do Hemingway nesse texto.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.