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O sucesso do pum

“Até as princesas soltam pum”, de Ilan Brenman, é um dos livros infantis mais vendidos do Brasil. Compreende-se. O fascínio das pessoas por pum, …

“Até as princesas soltam pum”, de Ilan Brenman, é um dos livros infantis mais vendidos do Brasil. Compreende-se. O fascínio das pessoas por pum, cocô e xixi é inesgotável. Nas mãos de um François Rabelais, essas coisas se tornam uma celebração, páginas cheias de pantagruelismo, como ele mesmo dizia. O humor de Rabelais não tem medida, mas consegue, por algum milagre literário, ser extremamente sofisticado. As princesas de Brenman, sei não, me pareceram tão constrangedoras quanto ficar trancado num elevador com uma delas.

Como o tema — apesar de explosivo — não me cheira bem, digamos, levei anos pra ler a obra, assim mesmo porque alguém me emprestou depois de atiçar minha curiosidade falando muito mal dela. A história é simples, se podemos chamar de história uma conversa de uma menina com o pai (claro que podemos, se o autor for Tchekhov ou Dalton Trevisan, por exemplo). Questionado pela filha se as princesas soltam pum, o senhor pega um livro secreto muito antigo que conta os segredos das princesas mais famosas. Sabemos então que a Cinderela, muito nervosa, soltou um pum enquanto dançava com o príncipe, que a Branca de Neve dormiu não devido ao veneno na maçã mas por causa do cheiro de seus próprios puns e, finalmente, que a Pequena Sereia dizia que aquelas borbulhas todas não eram feitas pela sua parte não aproveitável, como dizia o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, mas pelas algas. Certo que eu sou exigente em matéria de humor, mas, cá pra nós, isso aí está no nível mais baixo que eu conheço, o de piada de sogra ou de fanho.

Mas tem mais. Essas terríveis verdades estão num livro secreto e o pai pede pra filha não espalhá-las. Por quê? Toda a ideia que sustenta o livro de Brenman é que até as princesas, sem deixarem de ser lindas e maravilhosas, são humanas, quer dizer, soltam pum como as plebeias mais feias. Para uma verdade caindo de madura como essa, a ideia de um livro secreto é despropositada, como é despropositado o pedido de se manter em segredo o que está na primeira página de todos os tabloides. Faria sentido como piada se tivesse graça.

Sabe o que parece? Que o próprio Brenman não engole com naturalidade a natureza. Não é fácil, eu sei. E saber harmonizar num texto o que temos de mais cômico ou grosseiro e de mais sublime não é pra qualquer um. Não nasce um Rabelais todo dia.

Em Rabelais há uma exaltação do que temos de animal. Acho ótimo, principalmente num tempo em que a Igreja pregava uma humanidade angelical, ou vegetal, enquanto os padres se empanturravam pagos pelos dízimos e faturavam os coroinhas na sacristia, ou algumas fiéis. Hoje em dia, com o corpo na moda e uma sociedade que quer nos transformar em máquinas de consumo, talvez seja mais premente mostrar que também somos feitos de outras matérias. Agora, se temos grande interesse por problemas gastrointestinais, tudo bem, cada um na sua. Mas, por favor, contando boas histórias. Histórias ruins fazem mal a todo mundo, começando pelas crianças, sejam sobre o pum ou sobre o amor.

Brenman é psicólogo, mestre em educação, formador de professores, contador de história e autor de quase vinte livros, entre eles “Pai, todos os animais soltam pum?”. Se a coisa segue por aí, tapem o nariz, teremos uma saga. Posso imaginar novos sucessos como o desmistificador “Papai Noel solta pum” e a celebração do magistério, traduzido pra todo o Cone Sul, “Las maestras hacen pun”. Só espero que Brenman não resolva concorrer com Dan Brown e compre briga com o Vaticano em obras tipo “Até o papa solta pum” ou “Pai, que apóstolo soltou pum na santa ceia?”.

Autor

Ernani Ssó

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