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Ecos de Paraty

Júlia Moritz Schwarcz, enquanto saracoteava por Paraty com as filhas, escreveu um diário muito divertido para o blog da Companhia das Letras, misturando coisas …

Júlia Moritz Schwarcz, enquanto saracoteava por Paraty com as filhas, escreveu um diário muito divertido para o blog da Companhia das Letras, misturando coisas da festa literária com incidentes pessoais. Mas isso não é tudo — ela escreveu no celular. Fico pensando na quantidade de gente que me liga errado porque não consegue digitar o número certo. Eu, com dedos acostumados ao ofício desde a adolescência, apenas troco de teclado, perco o fio do pensamento, se dá pra chamar de pensamento o que se passa na minha cabeça. Como então ser capaz de escrever num celular? Pior, fazendo graça e sentido? Repentinamente me dei conta da verdade inapelável: acabei de entrar na melhor idade. Me sinto como Cervantes, com sua pena de pato, olhando para um manual de datilografia.

Boa pergunta

Salman Rushdie: “Se você é um autor e não sabe escrever a história infantil que gostaria de ter lido quando criança, que tipo de escritor você é?”. Em primeiro lugar, um escritor desmemoriado. Mas é preciso admitir que nem todo mundo sabe escrever o que gostaria de ler. Ou raramente sabe, se o ego permitir a sinceridade.

Humor e morte

“As piadas dos meus livros também ficaram melhores. Ser ameaçado de morte é bom para o humor”, disse Salman Rushdie. O pior é que isso não parece pose. Não, o pior é que bem pode ser verdadeiro. Ou você conhece algum otimista deslumbrado capaz de fazer boas piadas? O humor só começou depois que a segurança convidou Adão a ir ganhar a vida com o próprio suor.

Peter Burke

“Me preocupa que as novas gerações possam perder a capacidade de ler devagar. Eu acho que ler devagar, como cozinhar devagar, é muito importante para a civilização.” Eu acrescentaria conversar devagar. PS de Mário Goulart: e amar devagar.

A seriedade

Robert Crumb, meio perdidão em Paraty: “É bizarro. Me vejo como alguém que não deve ser levado a sério. Me dá medo ser levado a sério”.

Mas Isabel Allende não. Ficou na defesa, se defendendo de ser um sucesso: acha que ninguém é um sucesso há trinta anos se não for bom. Há dezenas e dezenas de exemplos de sucessos de mais de trinta anos que são lixo total. A explicação é simples: o número de tolos se mantém estável.

Como dizia minha avó, o dinheiro não é tudo. Além do dinheiro, a Isabel quer ser levada a séria. Todos querem, de um jeito ou de outro. Mas é chato dar tanta bandeira.

Ela diz que seus livros fazem sucesso porque aprendeu a lição do jornalismo: manter o leitor interessado. Tenho a vaga impressão de que esse negócio existia bem antes do jornalismo ser inventado, mas deixa pra lá, porque Homero não está nem aí para esse papo.

Ainda a seriedade

Meu caso é diferente. Se, por acaso, eu corresse o risco de ser levado a sério, não teria medo. Os que se metessem a me levar a sério é que deveriam ter.

Isabel e eu

Certamente os leitores da Isabel Allende a levam a sério. Não a teriam enriquecido se não levassem. Já eu não sou levado a sério por ninguém, mas, em compensação, também não consegui ganhar dinheiro.

Autor

Ernani Ssó

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