Semana passada, ao passar pela Avenida Plínio Brasil Milano no trecho que se transformou em mais um point de pizzarias de rodízio, tive um choque ao ver que uma das casas da vila do IAPI fora literalmente posta abaixo para virar estacionamento. A decadência abusiva e paulatina deste imenso conjunto habitacional, em que ainda moram meus pais e onde vivi desde um ano de idade até me casar, já me incomoda faz tempo. Não existe mais uma casa ou edifício com sua construção original: tudo foi mexido na vila, das árvores cuidadosamente plantadas em cada área à construção de puxadinhos e mais puxadinhos, no solo e nos telhados. Mas eu nunca tinha visto um terreno que, um dia, abrigou uma sólida residência se transformar num triste lugar para estacionar carros de freqüentadores de pizzarias.
O desprezo do poder público com o IAPI vem de muito longe. Mesmo tendo ex-moradores com poder de fogo na área política para cuidar do lugar, a vila virou, de bairro de operários, um aglomerado de moradias desfiguradas, externa e internamente. Quando eu era menina, lembro de meus pais indo pagar, religiosamente, o carnê do apartamento que a eles coube num processo seletivo que a gente acreditava rigoroso (depois, mais velha e menos ingênua, soube que houve muita manipulação na escolha de quem moraria onde) no prédio da Administração, uma espécie de subprefeitura que cuidava de recolher o dinheiro para o então Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários, real dono da vila.
A administração sumiu. Começaram a vender os apartamentos aos moradores e não sei em que parte do processo, degringolou tudo. Os proprietários e agregados começaram a se organizar em condomínios para fazer melhorias e, sem qualquer orientação do tal poder público, botaram abaixo árvores, desfiguraram ruas, refizeram fachadas já erguendo cercas e telas, trocaram portas, eliminaram espaços livres e os mais espertos foram avançando nos pátios localizados atrás de cada edifício e que se destinavam a plantar um abacateiro, uma horta, estender roupas com anil nos bons tempos.
Desordem, marginalidade, descaso, aviltamento. Toda esta porcaria se instalou no IAPI concomitantemente com o crescimento do número de ladrões, usuários e traficantes de drogas e gente que, comprando imóveis a troco de banana, delas fez palacetes em honra ao mau gosto e à arrogância. Sem falar no uso dos fundos dos edifícios para instalação de oficinas e outros endereços comerciais que imagino sem licença e sem razão de ali estarem.
Generalizo, claro. Algumas reformas são toleráveis e pessoas decentes continuaram a morar lá, assim como para lá acorreram outros tantos de honra ilibada e interesse comunitário. Mas, em sua maior parte, o IAPI é uma deplorável sombra do que foi um dia. E a prefeitura, fez o quê? Nada. Sucederam-se as administrações municipais e os eleitores e contribuintes do IAPI seguiram sendo tratados como meros e desimportantes suburbanos sem merecer um olhar que fosse de consideração. Vileiros, apenas.
Hoje, continuam os problemas com as sucessivas ondas de “moradores” embaixo do viaduto Obirici que tem com ele a vizinhar um prédio inteiro que abrigou, em priscas eras, um posto médico chamado SAMDU. Este edifício, há tempos, ostenta placa de venda e tem por locatários cães ferozes e mal-tratados de uma empresa que em vez de pagar gente como zelador explora cachorros. O cheiro de merda que exala deste edifício é de doer. O perigo que ronda quem por ali passa é absurdo. Isso que, ao lado, fica o fim de trajeto de lotações e ônibus.
E a Prefeitura está onde? Onde estava principalmente o PT, que ficou 16 anos no poder? Nem Olívio Dutra, nem Tarso Genro, nem Raul Pont, ninguém do PT fez coisa alguma pelo IAPI. Afinal, o Partido dos Trabalhadores poderia ter honrado seu nome e ajudado aos moradores a ter mais qualidade de vida e dignidade. Bem, como atualmente se sabe, o PT só estava e está interessado mesmo é em morder o pneu e levar sua parte no usufruto do poder.
Despejo com raiva e tristeza tudo isso motivada também pelo mail que meu amigo e colega Vitor Bley de Moraes, que morou no IAPI onde sua família também vive, conta que Sebastião Melo levou a José Fortunatti uma lista de reivindicações dos sobreviventes decentes do IAPI. Louvo a atitude de Melo, que já conseguiu outros benefícios para a vila, e só quero saber de uma coisa: Fortunatti, um dos poucos da tal vida política que ainda admiro, vai se interessar pelo caso ou vai ser mais um a ocupar o cargo de prefeito a usar a filosofia da vaca e, como seus antecessores, se lixar para o IAPI?
