Traduzo um trecho do final da primeira parte do romance do Roberto Bolaño: “(o jovem farmacêutico) preferia claramente, sem discussão, a obra menor à obra maior. Escolhia ‘A metamorfose’ em vez de ‘O processo’, escolhia ‘Bartleby’ em vez de ‘Moby Dick’, escolhia ‘Um coração simples’ em vez de ‘Bouvard e Pécuchet’, e ‘Um conto de Natal’ em vez de ‘História de duas cidades’ ou de ‘O clube Pickwick’. Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Já nem os farmacêuticos ilustrados se atrevem com as grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou o que dá na mesma: querem ver os grandes mestres em sessões de esgrima de treinamento, mas não querem saber nada dos combates de verdade, onde os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que nos atemoriza a todos, esse aquilo que nos acovarda e confronta, e há sangue e feridas mortais e fetidez”.
Roberto Bolaño preferia claramente, sem discussão, a obra maior à menor. Digo isso porque no livro não se dá voz ao farmacêutico. Não sabemos por que ele prefere as ditas obras menores. Temos apenas a defesa de Amalfitano.
Agora, esteja ou não Bolaño camuflado de Amalfitano, que papo é esse de obra maior e obra menor? Que papo é esse de que contos e novelas são exercícios, aquecimentos, e que romanções são os combates de verdade? A grandeza e a pequenez de uma obra não são medidas pela quantidade de palavras, mas pela eficácia com que essa obra dá conta do seu tema, ou “daquilo”. Se um grande número de páginas fosse uma boa medida, qualquer romance de Josué Montello seria superior a “Metamorfose” ou a “O artista da fome” ou a “A colônia penal”. Talvez seja uma trapaça usar Montello como exemplo. Fiquemos então com Kafka mesmo. “América” seria melhor.
E a poesia, seria o quê? Pura frescura?
Digo mais: faz parte da eficácia de uma obra a economia de meios para abrir “caminho no desconhecido”. Em arte, menos é mais. Mas, se vamos acreditar no Bolaño ou no Amalfitano, matar alguém com um tiro apenas entre os olhos é menos eficaz que o retalhar com uma faca, com uma machadinha, com uma serra elétrica, para depois enforcá-lo. Me perdoem a comparação, mas talvez o grotesco dela clareie o meio de campo.
Eu andava interessado nos textos críticos do Bolaño. Depois dessa tirada, esfriei. Como alguém capaz de um raciocínio desses pode ser considerado um dos grandes herdeiros do Borges? Acho que sei. As vuvuzelas da crítica não leram Borges direito.
Exposição
Dizer em público o que se pensa. Num país em que o oportunismo em todas as áreas e em todas as ideologias é a ordem do dia, chega a ser meio suicida. Mas às vezes a gente cansa. Chega a ser, então, quase uma questão de saúde se expor de vez em quando. Como ir à praça tomar sol.
Sobre falta
Duas e três, alguém lembra, como se fosse uma falta na área, que no país do futebol não há nenhum grande romance sobre futebol. Eu me contentaria com um grande romance, apenas.
Gol de placa
Caso se escrevesse um bom romance sobre o goleiro Bruno, teríamos um ganho duplo: um bom romance sobre futebol e um bom romance policial. Ou triplo: teríamos um bom romance sobre o alegre e cordial homem brasileiro.
Homens sérios
Um homem que se leva muito a sério é um perigo mortal — ele pensa que é a medida de todas as coisas.

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