A Globo News, como faz toda semana, convidou seus assinantes a escolher entre três temas para serem levados ao ar no programa Quero Saber, veiculado às sete da noite das sextas-feiras. Um dos tais temas foi a ação diplomática do Brasil no Irã para um firmar um acordo com o qual ninguém pensou, destinado a salvar o planeta. O assunto foi o menos votado: o povo prefere saber da regulamentação da internet, um papo chatérrimo, a ter de ver, de novo e de novo, especialistas e jornalistas debatendo se Lula é gênio ou tonto, se as “grandes potências” são realmente uma gangue ou se simplesmente merecem coordenar as ações internacionais.
Minha amiga Su, dilmista e lulista declarada, me enviou um mail com um artigo de um velho jornalista que se orgulha de ter estudado até o segundo ano primário e mesmo assim ter participado dos maiores momentos políticos e históricos brasileiros graças à sua capacidade de exercer seu dote natural para a comunicação social. No artigo, o veteraníssimo colega elogia a guerra santa “em nome da paz” capitaneada por Lula e seu grupo de inteligência e baixa a ripa nos Estados Unidos. E minha amiga dilmista e lulista aproveita pra me alfinetar sobre a falta de coerência dos súditos de Obama em ser da turma do “faz o que eu digo mas não faz o que eu faço”.
Normal isso. Quem, sem ser “espiritualizado”, ou alienado, não olha para a terra do abençoado McDonald’s com uma ponta de ressentimento por ver que os caras têm tudo o que é de ponta (em especial grandes cabeças, enquanto aqui a gente produz mais é cabeças grandes) e, acima de tudo, uma baita arrogância! Eu acho de última, entre outras coisas, o que o governo de lá faz para que nós, brasileiros tão bonzinhos, tenhamos direito a pisar em seu solo, precisando viajar até São Paulo e enfrentar funcionários que parecem treinados em Guantánamo, tamanha a antipatia ao fazer a entrevista que pode dar o ambicionado visto. Vocês têm muitos defeitos, brothers, podem crer!
E lembro de Florindo, jardineiro de uma família “de nome” de Porto Alegre, que batia ponto, diariamente, no balcão da sapataria de meu pai, no IAPI. Carapinha já branqueando, um sorriso escancarado, um dia, Florindo largou no chão a velha pasta de couro marron descascado em que levava a marmita e declarou, solene: “E a mentira que inventaram, hem, seo Waldemar. Deus castiga isso!” Meu pai, batendo um pé de sapato no avental de lona borrado de tinta e de cola, para espantar a poeira, levantou os olhos e ficou esperando. E Florindo emendou: “como é que os americanos inventaram essa história de que mandaram gente pra lua!” E não adiantou dizer que era verdade, que o mundo todo tinha assistido, nem falar em Nasa, em ciência: Florindo deve ter morrido meneando a cabeça por duvidar dos “mentirosos dos Estados Unidos”.
Tem gente que, ainda hoje, não só acha que os EUA são o demo em forma de nação como torcem para que Ahmadinejad largue por lá não uma mas várias bombas atômicas. Principalmente para se vingar do que foi feito no Japão, um horror imperdoável que não vai desgrudar nunca da história estadounidense, mas muito mais por aquela inveja que se abastece nas ideias mesquinhas.
Como analistas políticos daqui e alhures já esmiuçaram o tema Lula no Irã de todos os ângulos possíveis, não vou me alongar nestas mal-traçadas. Só para concluir: lembram criança mimada, aquela cheia de si, que vai para o palco do ginásio da escola certa de que o versinho que vai dizer arrancará aplausos e lágrimas de professores e pais e deixar os coleguinhas de boca caída? Pois é, o menino que se fazia de querido, que tapeou, vida inteira, seu pouco alcance com uma malandragem capaz de transformá-lo no líder de uma das turminhas do colégio, pois o menino deixou o palco com cara de bobo. Sorrisos só dos amiguinhos de brincadeiras: nem professoras nem pais choraram de emoção ou aplaudiram sua apresentação, ao contrário. Agora, o menino que se achava tão esperto anda de bico caído, se queixando de que o mundo é mau, que ninguém o entende, que vão se arrepender. Tadinho! E ainda queria ser o presidente do centro acadêmico!
