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Foto para documento

É clássico, as fotos de documento são um desastre. Esses dias fiz uma apavorante. No começo, achei que tinha ficado tipo 11 de setembro …

É clássico, as fotos de documento são um desastre. Esses dias fiz uma apavorante. No começo, achei que tinha ficado tipo 11 de setembro e que me deportariam em minutos de qualquer lugar. Depois, olhando melhor, vi o que me incomodava: a foto era igualzinha a essas que a gente vê ilustrando comunicado de falecimento. A morte não me mete muito medo, mas esses trechos de biografia, feitos numa forma infinita, sim. 

Meridiano de sangue 

Não consegui ler “Onde os velhos não têm vez”, do Cormac McCarthy, por causa do descritivismo alucinado dele. Aí o jornalista Airton Centeno me deu “Como e por que ler”, do Harold Bloom, onde o velho acadêmico diz que Cormac, em “Meridiano de sangue”, só pode ser comparado a Melville e Faulkner. Fui conferir. A prosa de “Meridiano” oscila entre uma poesia digna do famoso pinguim sobre a geladeira e o descritivismo típico do cinema, mas sem a vantagem do cinema, claro, a presença do ator. Vamos aos exemplos para que ninguém pense que se trata de birra gratuita.

Poesia: “Seguiram sua marcha e o sol a leste lançou pálidas estrias de luz e depois uma faixa mais profunda de cor como sangue filtrado para o alto em súbitas distensões planas e fulgurantes e onde a terra era absorvida pelo céu no limiar da criação a ponta do sol surgiu do nada como a cabeça de um enorme falo vermelho até que clareasse a orla invisível e se aboletasse gordo e pulsante e malévolo às costas deles”.

Descritivismo: “O sargento apoiou a mão na patilha da sela e olhou em torno do lugar onde estavam e balançou a cabeça e apeou”. Mário Goulart: “Se não fosse ‘do lugar onde estavam’, de onde seria?

Outra coisa, a economia de vírgulas de Cormac me obriga, muitas vezes, a ler duas vezes as frases pra me desenredar. O que justifica essa economia? Alguém esperto me dê a dica, please.

A história e os personagens que a gente pode vislumbrar soterrados por esse palavrório parecem interessantes. Mas vale o ingresso? Há centenas de histórias e personagens melhores em outros escritores de prosa mais, digamos, sensata. O azar deles é que não são americanos para ter o Harold Bloom e outros esculpindo uma estátua, nem contam com os leitores amestrados do terceiro mundo pra dizer amém. 

Ainda o Meridiano 

Vamos supor que eu tivesse uma oficina de literatura. Se um aluno aparecesse com um romance chamado “Meridiano de sangue”, minha primeira sugestão seria que trocasse o título. Não parece título de filme no Brasil? Aquele negócio: no original se chama “Meridiano” e aqui acrescentam um “de sangue” pra dar algum colorido mais comercial.

Aí me deparo com o segundo parágrafo: “A noite em que você nasceu. Trinta e três. Os Leonídeos, era como chamavam. Deus, como choviam estrelas. Busquei o negrume, buracos no firmamento. A Ursa despedaçada”.

O mais delicadamente possível, eu recomendaria meu aluno a desistir da literatura e o mandaria se dedicar à agricultura, como plantar batatas, ou se dedicar a diversões na praia, como se roçar nas ostras. Moral da história: não teríamos “um marco da literatura americana”.

A tradução de Meridiano 

Em muitos momentos parece feita por um tradutor eletrônico. Kid é traduzido por kid, se enrolam cigarros em casca de milho, o malabarista é showman. 

Folclore 

O cara que se tornou folclórico tem a vantagem de poder dizer o que bem quiser impunemente. A desvantagem é que ninguém o leva sério. É meio como a síndrome Cassandra.

Autor

Ernani Ssó

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