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Outras palavras

Assisti, na sequência, às entrevistas que Geneton Moraes Neto fez com dois generais-símbolo do regime militar de 1964, Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves. …

Assisti, na sequência, às entrevistas que Geneton Moraes Neto fez com dois generais-símbolo do regime militar de 1964, Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves. Elas estão disponíveis, em texto e vídeo, na coluna do jornalista, no site do G1.  Um resgate de história que merece aplauso de todos, este trabalho de Geneton. No mínimo, um exercício de jornalismo real, de busca da verdade sobre um episódio que aconteceu ontem em torno de nós, que vivemos o antes, o durante e o depois do que costumamos chamar Ditadura da Direita e que, por sua vez, espelha um posicionamento político-ideológico que se espalhou pela América Latina na contramão do que ocorria além-Atlântico, com um quase endeusamento da União Soviética.

Geneton levou muita pedrada no site, de internautas que o criticaram por uma miríade de motivos, desde haver dado a palavra a dois sujeitos tidos como malditos nas cartilhas da esquerda até por pertencer ele, Geneton, a uma organização que “financiou” a implantação dos militares no poder. Normal este tipo de reação: afinal, computamos quase oito anos de governo Lula que, de trabalhista, comunista ou socialista só tem o charme, mas que serviu para disseminar o pensamento reinterpretado dos seguidores de Marx. E se há uma coisa que o PT e o pessoal dos bastidores lulistas fazem bem é marketing e comunicação dirigida. Ou fazia – os exemplos recentes do trabalho junto à candidata Dilma Rousseff, com a trapalhada de Marcelo Branco e a gurizada do bunker (aqueles velhinhos de fala riponga misturados à garotada que engole sem pensar, sabem?), mostram que estão perdendo o jeito.

Mas eu queria falar dos depoimentos de Newton Cruz, hoje um ancião que ainda sabe rosnar, mas, com certeza, não assusta nem bebezinho, e de Leônidas, que mantém aquele ar de mando que o Exército sabe incutir em seu pessoal. E uma coisa, além das palavras de cada um deles, de suas revelações (como a de Leônidas, de que um integrante do Partido Comunista entregou parceiros em troca de grana, e de Newton, de que evitou um atentado capaz de matar centenas de civis), me impressionou: o olhar dos entrevistados.

Leônidas mantém um brilho impressionante nos olhos. E não estou falando de estética, mas de significado: é a autoconfiança, o desafio, a capacidade de encarar quem quer que seja sem o menor temor. Esteja ou não com a razão, Leônidas acredita no que fez e no que faz.

Já Newton está com aquele olhar embaçado dos que chegam ao final da vida acuados, vítimas ou de seus erros ou do desengano de terem servido sem um posicionamento mais crítico, mais exigente diante de seus pares e superiores. Este, perdeu até o lado folclórico, a truculência que dava tanta raiva quanto vontade de rir e ridicularizar.

Leônidas e Newton estão se encaminhando para o final de suas existências. Defendem, sem titubear, o que acreditam e aquilo pelo que viveram. Talvez seja efeito do treinamento da caserna, esta convicção, esta verdade que ninguém lhes tira, mesmo que pudessem até duvidar do que afirmam. Os velhos generais não renegam o que foram, para o bem ou para o mal, assumem, assinam embaixo. E isso admiro neles. E admiro em todos os que não dobram a espinha à conveniência dos casamentos hediondos em busca de algo que, acima de tudo, sob Lula, se denominou “governabilidade” e que, na real, pode ser chamado de vale-tudo. Uma subserviência conveniente que envolve abraçar Collor de Mello e Sarney, que representam as oligarquias que o PT e Lula sempre combateram (ou era só perfumaria?), defender o assassino de civis italiano Cesare Battisti, mas chamar de bandido o cubano Orlando Zapata, que morreu de fome pedindo liberdade de pensamento aos pés calçados de Adidas de Fidel Castro e seu irmão, hostilizar um cineasta que criticou a agressão de Belo Monte, mas se derreter ao ser adulado pelo presidente dos Estados Unidos, ceder a embaixada do país a um pastiche de Hugo Chávez, mas rasgar bandeira em prol de um Irã que não respeita direitos civis.

Temos, sim, que continuar lamentando os 25 anos de tacão militar pela censura exercida, pelas torturas comprovadas e perseguições efetuadas, pela opressão e pelo medo. No entanto, não poderemos jamais dizer que Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves são meros oportunistas como estes que um dia sequestraram civis, jogaram bombas e mataram sem piedade e hoje buscam se amarrar ao poder, visando ao posto mais importante numa República: a presidência do Brasil. Para estes, não tem perdão.

Autor

Maristela Bairros

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