Recebi, faz pouco, um mail da minha amiga querida Françoise Canabal Y Colomina que, por amor a esta terra, se abrasileirou para Francisca, ou apenas Chica, para os que a querem muito. Ela me mandou o projeto do prefeito Bertrand Delanoë que pretende resgatar parte da borda do Sena de há muito cedida aos carros franceses, e acrescentou um lembrete: “Que bom que fizessem o mesmo com nosso Guaíba”. Pois é, amiga: como diz minha filha arquiteta, todo projeto que envolve o nosso rio, lago, estuário, seja lá o que for, é um problema.
Lembro de uma matéria que fiz para a finada revista da igualmente finada Transbrasil, lá no começo dos anos 90, mostrando os planos de aproveitar a área de deságue do arroio Dilúvio. Bem bonito o projeto. Morreu.
Durante o governo Rigotto, não foram poucas as reuniões da comissão criada para valorizar a área do cais, em especial aquele pedaço tétrico junto aos armazéns desativados, que eventualmente são ocupados. Que eu saiba, de concreto nada houve. E se alguém souber de alguma novidade realmente importante, por favor, me avise.
Continuamos tendo, no centro de Porto Alegre, um muro horroroso que não tem “arte” que disfarce uma degradação lamentável do entorno e apenas uma janela para acesso ao local, janela essa que se abre durante a Feira do Livro, com a instalação das bancas e das atividades para crianças naquele trecho. Continuamos esperando uma enchente que nunca mais se repetiu, “protegidos” por uma tapadeira de concreto que afasta, raivosamente, a cidade de seu rio. Pelo jeito, isso será para sempre.
Quero até ter uma certa esperança de dias melhores para este relacionamento mal-resolvido ao pensar que a Praça da Alfândega ganhou o direito de voltar a ser a moldura para prédios lindos como o dos Correios e do Margs e, quiçá, menos couto de marginais, de prostitutas e todo tipo de salafrário que se mistura a quem, forçosamente, tem de por ali passar para trabalhar. Pode ser que as velhas cabeças toscas que nunca se abrem ao novo ocupem seus respectivos travesseiros e deem lugar aos criativos de pensamento, gente que entenda de, mais que urbanismo, relação humana, e o Guaíba, depois de tão espremido e aterrado de imundície, receba um tratamento decente.
Fico, sim, com uma inveja imensa dos parisienses que poderão descer as escadarias do Musée d’Orsay e chegar à beira do Sena, na maior tranquilidade, para tirar os sapatos e expor os pés ao sol como fazem, a cada primavera, nos cafés mais centrais, sem o menor pudor. Adoraria saber que um humanista, ou melhor, vários deles se unirão para pensar um jeito de todos os moradores e visitantes de Porto Alegre terem direito de sair de uma visita à Casa de Cultura Mario Quintana e se sentar na beira do cais para ver o pôr do sol de um ângulo diferente. Com segurança. Com alegria.
Não temos rive droite e rive gauche, já que o Guaíba não está aprisionado dentro de Porto Alegre como o Sena em Paris, temos somente uma margem, que poderia ficar livre de parte da poluição louca para permitir que, a exemplo do flaneur que sai do Hôtel de Ville, o acossado pedestre de Porto Alegre saísse da Prefeitura para tomar um chimarrão ali, pertinho, na beira da água. E um café flottant seria tri bem-vindo, não importa se nos chamassem de “imitões” dos parisienses. Poderíamos até criar algo semelhante ao Atelier Parisien d’Urbanisme (Apur) para buscar este recomeço de namoro com o Guaíba. Seria um bom começo.
Claro que não haverá, nunca, unanimidade para este sonho. O socialista Delanoë já começou a levar bordoada de todos os lados, acusado, inclusive, de que só vai piorar o trânsito ao retirar carros da beirada do Sena e levá-los para as ruas próximas. Portanto, amiga Chica, acho que nesta vida não vamos assistir nem mesmo a um arremedo de projeto para nos livrar do império do automóvel (em particular, os imensos que são moda no terceiro mundo que se acha quase primeiro) e da fealdade traduzida naquele muro fantasmagórico da Mauá.
Não percamos a fé, porém: daqui a uns 50 anos, pode ser que descoladas porto-alegrenses sejam vistas tirando a blusa, e se deitando, relaxadamente, só de sutiã, nas pedras do cais para pegar um solzinho, sob o olhar respeitoso dos rapazes da Capital, todos bebendo um vinhozinho, conversando amenidades, ou curtindo o silêncio. Como se faz, lá em Paris.
