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Eu não sou culpada

Acabo de desembarcar de uma maratona pela interland gaúcha quase ao estilo daquelas que eu fazia quando coordenava a Comunicação Social da Secretaria da …

Acabo de desembarcar de uma maratona pela interland gaúcha quase ao estilo daquelas que eu fazia quando coordenava a Comunicação Social da Secretaria da Cultura do Estado e, junto com o então titular da pasta, Roque Jacoby, cruzava o Rio Grande, sem diária – paga com dois meses de atraso ou mais – e sem, muitas vezes, tempo de trocar as malas. Fui nesta sexta-feira a Encantado, tratar de questões pessoais, num ônibus da empresa Azul, que, se pretendia se valer da tranqüilidade a que esta cor está associada, errou feio.

Peguei um pinga, que sai de Porto Alegre às 9h45min e para em Vila Nova, depois em Estrela, Lajeado e Arroio do Meio ou em qualquer lugar em que a campainha solicite. Tem ar condicionado com cheiro de que o filtro há meses não vê limpeza anti-ácaro, e bancos confortáveis até. Mas não deve ter manutenção: lá pelas tantas, o motorista parou no acostamento, deu aquela tradicional espiada nos pneus, abriu a porta que o separa dos passageiros e avisou: “pessoal, infelizmente vamos ter de trocar um pneu.”

E lá fomos nós, um bebezinho de um ano inclusive, esperar o borracheiro, daqueles bem barrigudos, com calça exibindo o nada fotogênico cofrinho, erguer o ônibus e trocar o bendito pneu. Meia hora de atraso, ajudada pelos folgados que aproveitam para descer, tomar um café e ainda trazer um pastel fedendo a gordura reutilizada para dentro do carro.

Para me distrair, resolvi dar uma olhada num dos nossos jornais diários e encontro uma pérola de coluna de um colega a quem admiro e quero bem, abordando as chuvas e deslizamentos de morros no Rio. A leitura só agravou meu estado de humor diante do atraso, da distância, da tarefa e dos sapatos machucando meus pés inchados.

Pois o querido colega incorporou o santo do socialismo moreno em seu escrito jornaleiro. Que pena! Tão eficaz ele é em sua fórmula humorística diária que deveria ter pensado umas 500 vezes antes de emitir sua má fadada idéia do “de quem é a culpa pela desgraça dos moradores dos morros que desabam”. Poderia ter se poupado do mico, da chantagem emocional fácil e do conforto de colocar a responsabilidade no “nós”, não o “nós” majestático, mas o do coletivo mesmo: eu, ele, você, eles, vós etc.

Enquanto ia engolindo a paisagem verde com ou sem vaquinhas, casas velhas e novas, jardins de grama bem aparada, máquinas coloridas ao fundo nos campos, este puzzle típico da terra, fui lendo e tentando deglutir, a seco, a croniqueta que me apontava o dedo. Um dedo grande e absurdo que procura imputar a quem está lendo a culpa pela ocupação indevida de um lixão e a corrupção das “otoridádi” que se locupletam, vai governo vem governo, se lixando para as questões sociais.

Aquele papo de “o asfalto olha mais uma vez para o morro” me engulhou e indignou. E quantas vezes já li, ouvi, vi estes conceitos tortos de uma auto-ajuda que só serve a quem escreve para angariar, possivelmente, uma banda nova de admiradores, aqueles que fingem não ser “dazelite” ou até o engraxate “engajado”. Fico aborrecida quando vejo estas coisas oportunistas, ao sabor da falsidade, sendo publicadas por quem é, querendo ou não, merecendo ou não, essa coisa chamada “formador de opinião”. Noves fora, falta de experiência não é, porque o autor já está bem taludinho e publicado para sofrer um ataque de juvenil marxismo. Tampouco é ingenuidade, já que é (até onde sei) um cara bem informado. Para mim, trata-se de assuntismo barato.

É incrível como é fácil defender os “fracos e espremidos” usando do lugar-comum. Sem sair de sua zona de bem-estar, se valendo apenas da teoria, do alto de sua posição de arrendatário de um espaço em uma mídia.

Então, tenho a dizer a este colega, já um senhor, pai de filho, que vire seu dedo para outros que não eu, que não tenho culpa dos estragos e das mortes causados pelas chuvas no Rio nem em lugar algum. Há, sim, quem mereça ser apontado, mas este ato exige mais atenção e menos apelação. E coragem!

Acho que fiquei tão carregada com esta leitura que, ao voltar para Porto Alegre, pela mesma empresa Azul de transporte, tive outro dissabor: mal encostamos na rodoviária da primeira cidade-pingada, o motorista avisou: “vamos ter de trocar de ônibus. Esse aqui furou um pneu hoje de manhã e não está bom.”

É brincadeira isso?

Autor

Maristela Bairros

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