A freira com quem eu tinha mais contato sempre dizia, toda efusiva e pagã, ao me ver: “E aí, cara, beleza?” Lá em casa ela ficou conhecida como o Cara. Um dia fui receber uma grana com o Cara, mas me pediram pra esperar, e outra freira veio falar comigo, uma senhora de idade indefinida, com uma expressão também indefinida, que eu nunca tinha visto. De modo circunspecto, eu disse: “Boa tarde, irmã”. Ela: “E aí, cara, beleza?” Eu, mesmo apreciando profundamente a situação, não tive presença de espírito para responder à altura: “Beleza, que Jesus esteja convosco”.
Velhos e novos
Ando sempre à cata de autores novos. Lembro da alegria de conhecer, anos atrás, o Marçal Aquino, o Sérgio Fantini e a Índigo, por exemplo. Mas a verdade é que essa alegria não é muito frequente. Com o tempo, descobri outro tipo de alegria: descobrir autores velhos. Ou redescobrir.
Dia desses peguei por acaso o “Nove estórias”, do J. D. Salinger. Lido há muito tempo, não me restava nada, fora uma sensação agradável. Mas bastante vaga. Então a surpresa: como esse desgraçado escrevia bem, minha nossa. Como eu não lembrava? É provável que eu o tenha lido em circunstâncias não muito favoráveis.
Não vou encher ninguém com uma resenha detalhada. Mas há três coisas que devo falar. A mais evidente é o humor sem claque do Salinger. Ele beira o zen, ou é puro zen. Outra evidente também são os diálogos. Beiram a perfeição. Absolutamente naturais, na linguagem e nas idas e vindas: interrupções, desvios, pausas. A terceira coisa é mais secreta. Os temas são os de sempre, as histórias são simples, mas tudo é extremamente complexo e, de lambujem, não há um lugar-comum. Salinger não se apoia em nada manjado nem para tomar impulso. Nova lição zen. Ele nunca fala das coisas, mas da sombra delas, ou do vazio que elas deixam. Ou não? Não. Ele fala de outras coisas e, pela disposição delas, percebemos a sombra e o vazio.
Eu, se fosse ele, também ia me trancar numa fazenda. É tudo muito chato, muito burro.
A tradução
Jório Dauster e Álvaro Alencar assinam a tradução de “Nove estórias”. Em vários momentos esquecemos que se trata de uma tradução e lemos como se o texto fosse brasileiro. Isso, pra mim, é uma das medidas de uma boa tradução.
Concordância
Depois de descrever o dia a dia horroroso de um colégio interno de Boston, no começo de 1800, em “A ilha sob o mar”, Isabel Allende fecha o parágrafo com esta frase: “O calvário terminava recitando em coro a Declaração da Independência”. Não se trata de um erro isolado que pincei pra me divertir às custas da velhota. Ela chega a se enrolar quatro ou cinco vezes com as concordâncias em algumas páginas. Mas o que é isso comparado com o manuseio dos personagens ao sabor do sentimentalismo, do populismo e do chute, puro e simples? O calvário desses folhetins é a pose de seriedade.
Dan Brown
Ele disse que sempre quis se dedicar a alguma coisa criativa. Tá certo. A gente espera.

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