Minha mãe, que tem quase 82 anos, sempre que quer criticar o que ela chama de “o excesso de liberdade de hoje em dia”, reconta uma das histórias do meu avô Alfredo: “A gente morria de medo do papai. Ele sentava à cabeceira da mesa, sério, e era o primeiro a ser servido pela mamãe. Todos tinham de ficar quietos, não dar um pio – só se ele puxasse conversa. Se papai ouvisse um comentário, uma risada que fosse que ele não houvesse autorizado, levantava os olhos do prato e dizia, sem alterar a voz, grave e baixa: ‘vamos calando a boca aí’. E nós simplesmente nos calávamos”.
Para dona Luci, minha amorosa e duríssima mãe, o autoritarismo, a arrogância e o abuso de poder de meu avô não merecem críticas. Ao contrário, são até normais, já que, à época em que ela foi criança, lá nos idos dos anos 1930, pai que era pai ficava no pedestal e jamais era questionado em sua “autoridade”. E criança “bem educada” tinha de ter “respeito” absoluto à mão que, com a mesma naturalidade com que afagava, batia em reprimenda a tudo que contrariasse suas idéias sobre certo e errado.
Esta semana, lembrei direto desta história quando alguém do Blog do Planalto tentou me calar me intimidando, através de mensagens (todas elas eu gravei em imagem) quando ousei publicar, em meu twitter, uma observação sobre as pessoas que enviam questões à seção “O Presidente Responde”. Questionei, com meu direito constitucional de cidadã, a real existência dos nomes que apareciam encabeçando as perguntas, porque estranhei aquela mesmice do texto (muito elaborado) das indagações, sempre tudo pasteurizado, igual.
Ironizei, também usando de meu direito de cidadã e principalmente de jornalista, a Secretaria de Comunicação capitaneada por Franklin Martins, por permitir que fossem publicados na internet nomes de pessoas que, numa simples e eficaz pesquisa no Google, só aparecem na seção do blog e nos veículos de comunicação que, eu soube depois, aceitam publicar a tal seção. Na verdade, dos nomes que pesquisei, apenas um aparece em outro espaço que não o do blog e seus parceiros na mídia: trata-se de Lizandra (ou Lisandra) Solla, que tem perfil não-atualizado no twitter, autora de uma pergunta a Lula sobre a Polícia Federal. A questão que ela apresenta, bem como o estilo com que o faz, antagonizam com aquele que ela exibe em suas tuitadas como, por exemplo, as rogativas feitas a Boninho para integrar o BBB.
A reação do blog presidencial foi bem ao estilo melífluo petista de, primeiro, desqualificar o oponente. Como não me calei, o passo seguinte foi me enviar um arquivo de word sobre a parceria entre o blog e algumas mídias interessadas em publicar a seção e me chamar de mal-informada. Detalhe: tal documento não esclarece nada sobre os “perguntadores” quanto a serem eles devidamente identificados, já que deles são exigidos apenas nome completo, idade, ocupação e cidade de residência. Nada de número de CPF, tampouco de cédula de identidade. Um risco, portanto, para o próprio blog. E para o presidente, de estar sendo vítima de um embuste.
Mas, ao velho estilo soviético, o BP, em vez de esclarecer, e dialogar, aceitando a crítica, se preocupou em fazer com que eu parecesse mentirosa ou leviana. Quando voltei a reagir, apagou o texto em que me “sugeria” que eu fizesse uma acusação formal, coisa de “estado policialesco”,como bem me disse o senador Álvaro Dias ao tomar conhecimento do fato. Como um patriarca de antanho, a pessoa por trás do BP me ameaçou literalmente assim: “olha o bom-senso”. Algo como “se não ficar quietinha, vai ser castigada.”
E continuou e continua nesta linha, sem esclarecer sobre o que foi observado a respeito da seção de perguntas e respostas, mas mantendo a pressão. Inclusive a quem se manifesta a meu favor, tentando fazer crer, publicamente, que sou criminosa. Nunca, nem na época da ditadura militar, em que estudei jornalismo e comecei a trabalhar sob o tacão e a censura do governo Médici, vi tamanha demonstração de fria arrogância e exercício do poder acima de qualquer limite.
O Blog do Planalto usa da hostilidade vazia para me levar a desistir de apontar falhas num espaço criado para ser esclarecedor, muito embora seja, do modo como se apresenta, um blog do presidente e não da presidência. Este é um blog que não mostra expediente (qualquer jornal ou revista sabe que isso é o correto), que não abre espaço para comentários (e ainda se justifica) e tem na equipe alguém que usa termos muito jornalísticos e sérios como “marola”. Seria cômico, não fosse trágico o fato de que, com nosso suor e nossos impostos, pagamos o salário de todos que fazem este blog. O mínimo que poderiam fazer é dirimir nossas dúvidas e, sem sarcasmo, pressão, intimidação ou dissimulação, nos tornar, em vez de contendores, seus seguidores por ver neles um real valor.
Em tempo: tenho tudo bem documentado em imagens, e a troca de twitters, bem como minhas dúvidas e até sugestões para uma maior qualidade do blog, foram encaminhadas para alguém que começou sua vida profissional a meu lado, na Rádio Gaúcha, naqueles anos 1970, e que hoje integra a comunicação do governo Lula, na TVBrasil, meu estimado, sério e competente José Roberto Garcez. Que, infelizmente, nada me respondeu.
