O conceito das inteligências múltiplas pegou, me parece que com razão. Eu, pelo menos, sou bem espertinho para umas coisas, mas até hoje tenho problemas com a tabuada do sete pra cima, por exemplo. Agora, o que há de reconfortante nesse conceito tem também de amedrontador, basta olharmos para ele de trás pra frente: as burrices múltiplas. Se fizermos direito as contas, é possível descobrir que somos estúpidos em muito mais coisas do que somos inteligentes. Vou mais longe. Não só não somos inteligentes em tudo, como nem sempre somos inteligentes no que somos comprovadamente inteligentes. Qualquer coisinha do dia a dia pode nos desafinar, uma noite mal dormida, um desencontro, uma chuva, um esquecimento, uma broxada. Quantas vezes uma amizade ou inimizade nos obscureceu o raciocínio? Os famosos testes de QI são ótimos, quando aplicados em máquinas.
QBS
Sempre desejei ver um teste que medisse nosso quociente de bom senso. Acho bom senso mais importante que inteligência. Ou bom senso é um tipo de inteligência? Leva jeito de ser. Mas o diabo é que o bom senso sofre da mesma precariedade. Vi mais de uma vez pessoa de comprovado bom senso cometendo desatinos como qualquer papalvo ou doidivanas.
Em literatura, por exemplo, o bom senso não recomenda usar palavras como papalvo e doidivanas. Por falar nisso, em literatura o bom senso é um bom guia em matéria estilística, uma ferramenta pra hora de passar a limpo, mas pouco mais. Os melhores livros nasceram de apostas loucas, de aventuras extravagantes, de delírios, de pesadelos.
Humoristas
Acho que foi Nietzsche que disse que os humoristas assobiam pra se distrair do medo do escuro. Pode ser. Mas…
Os filósofos, na tentativa de acender a luz, criam sistemas intrincadíssimos, num palavrório mais intrincado ainda. Resultado: a única coisa que fica clara é o próprio filósofo, suas astúcias e limitações, vaidades, sonhos, perplexidades. Nietzsche batendo no peito e esbravejando pela vinda do super-homem é o quê? Um anão, em cima de um banquinho, querendo que a escuridão o confunda com um gigante de dois metros. Talvez seja menos constrangedor assobiar.
Os cientistas vão mais longe. A escuridão essencial continua com a mesma intensidade e medo dela também, pelo menos até agora, mas vários pontos em que a gente tropeçava foram localizados e até ganharam um adesivo luminoso que qualquer um pode ver. Ou você ainda prefere acreditar que os trovões se devem às marteladas de Tor ou a São Pedro jogando boliche?
Os religiosos admitem a escuridão pra dizer que no fim um patriarca de uma tribo primitiva, de ferozes barbas brancas, vai acender a luz. Ou religiosos que, sentindo-se muito mais inteligentes que seus pares, dispensam o patriarca e nos apresentam uma força superior. Não quero parecer engraçadinho, mas sempre que se fala em força superior me lembro da força da gravidade ou vejo uma espécie de Professor Xavier, o chefe dos X-men, pairando no ar, com os olhos fechados, ordenando o caos e a indiferença do mundo. Se ele parar, vai tudo pro beleléu.
Bom, isso é trocar um cabeludo barbudo por um careca imberbe. Ou a força superior é energia pura e abstrata? Pode ter um ar mais científico, mas é menos fotogênica. O problema segue sendo estatístico: as vítimas do caos e da indiferença do mundo crescem sempre, mesmo com o patriarca sofrendo os efeitos colaterais da endropausa ou a energia tão bem ilustrada por efeitos especiais de Hollywood.
Mas — lá vêm as reticências do primeiro parágrafo. Não conheço nenhum Humorista, nenhum Filósofo, ou Cientista, ou Religioso. Só conheço pessoas, que podem ser tudo isso ao mesmo tempo, ou ser mais bem humoradas ou religiosas com pitadas das demais tendências.

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