Me lembrei do Fred Astaire nas primeiras páginas de Os Espiões, do Luis Fernando Verissimo. Ele dizia: “O segredo é fazer parecer fácil”. A leveza, o humor e a fluência abençoada do texto do Verissimo fazem parecer fácil, fácil demais até. O gigolô das palavras é dureza: não deixa que elas fiquem se fresqueando ou fazendo poses insinuantes. Ele sabe que se afrouxar logo elas mandam em casa. Aí, tudo pode acontecer, mesmo um “luzedia”, como nos versos da Corina, a poeta que assombra o herói. Esse é o ponto: se fosse fácil, meu caro, não havia tantas Corinas, e se o Fred Astaire tivesse mais admiradores, os cadernos B da vida não entronizavam tantas Corinas.
Vamos deixar a trama para lá, porque é feio negar o prazer do leitor de ser enganado. Todo mundo escreve ou sente a comichão. Os livros se multiplicam mais que os bichinhos aqueles no iogurte. Um editor, ressentido ou muito lúcido, devolve tudo e tenta conter essa enxurrada com cartas ferozes. Mas um dia topa com o romance ou confissão de Ariadne. É fisgado pelo texto, é fisgado pela história. Quanto mais confunde a autora com a personagem, mais envolvido se sente, a ponto de ser arrancado de uma vida de porre, silêncio e solidão. Os amigos ou meros conhecidos embarcam no mesmo fascínio. Enfim, todos seguem o fio de Ariadne — ela é linda, ela corre perigo, ela precisa ser salva. A trama se arma como que sozinha, o leitor escolado em muitos romances policiais se sentindo esperto, porque consegue ver algumas páginas à frente dos personagens.
A Ariadne do mito dá um fio a Teseu para que ele consiga sair do labirinto depois de matar o Minotauro. Em Os Espiões, Ariadne dá um texto e os leitores são atraídos para a cidadezinha de Frondosa, onde o Minotauro, quando não devora, tira pedaços. Mais que Creta, Frondosa é La Mancha. La Mancha tinha a mania de ser mais prosaica do que Quixote desejava, mas era muito mais perigosa, vide as camaçadas de pau que ele levou. Se a Dulcineia de Frondosa não é uma camponesa de bigode, é leitora fiel de Astrologia e Amor — Um Guia Sideral para Namorados. O horror, o horror.
Voltando aos livros, à comichão: a literatura também é La Mancha ou Frondosa. Os autores se matam contra gigantes de muitos braços, mas Marcito, o dono da editora, acha que é muita pretensão literária o cara querer ser publicado e pago ainda por cima. O Marcito e o público estão interessados nos moinhos de vento: Astrologia e Amor. No máximo, em Corina, uma bruxa que engambela as pessoas com visagens luzedias.
Trata-se de uma farsa? Certamente. Mas por que, ao se falar em farsa nesses brasis, se dá um desconto? Oscar Wilde também escrevia farsas. “Claro, mas Oscar Wilde…”, se diz com a boca cheia, inclusive de reticências. Parte da outra farsa, nossa vida cultural, é feita de reverência por nomes de mortos ilustres. Às vezes nem lemos direito os caras. Ou lemos com tédio mas repetimos a decoreba escolar. O valor literário se desprende do prestígio do selo editorial, ou da pose de seriedade do autor ao dar entrevistas, ou dos prêmios em que os jurados confundem adjetivos com argumentos, ou das elucubrações de acadêmicos fazendo caras e bocas indecorosas para outros acadêmicos. Os Espiões também satiriza isso, de leve, sim, meio como uma piscada para os que conhecem a Corina pessoalmente.
Com modéstia ou cansaço, o Verissimo diz que seu ramo é o entretenimento. Pode ser. Ou diz com ironia? Ovídio — um poeta divertido ainda hoje, como Cervantes, apesar do esforço de destruição dos tradutores — dizia que há uma arte de parecer sem arte. Este é o credo dos mais audazes.

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