Ele não lembrava de alguma vez ter acreditado em Papai Noel. Mas uma noite, assistindo a um comercial na tevê com um Papai Noel mais bonachão que a média e com renas perfeitas de animação computadorizada, foi tomado por uma tremenda angústia. Levou horas para dormir, assim mesmo com a ajuda de dois calmantes e uma talagada de conhaque. Acordou todo ruim na manhã de Natal: o corpo dolorido, a boca pastosa, a cabeça rachando. Então, de modo confuso, lembrou daquela outra manhã, há muitos anos: a casa dos pais, o saco rasgado no pátio, presentes caídos pela grama, farrapos de uma roupa vermelha, um trenó velho nos fundos, restos de quatro renas e os dez dobermanns do pai que recusaram a ração.
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As crianças levantaram cedinho, mas cadê os presentes? No pinheiro, apenas os enfeites de ontem. Antes que reclamassem, a mãe disse azeda:
— Bem feito! No ano que vem tratem de ser mais obedientes.
Mas trocou um olhar com o pai.
Ele encolheu os ombros e foi fazer fogo na lareira. Depois foi pra cozinha, mas nem tomou o café, correu de volta à sala: a casa estava cheia de fumaça. Era estranho, havia limpado a chaminé no começo do inverno. Nesse instante, um dos meninos gritou, com o nariz colado na vidraça da janela:
— Olhe ali! Tem um trenó. Ali, ó, no jardim. Manhê, as renas tão comendo tuas rosas!
Antes que o pai pudesse olhar, se ouviram os berros. O calor do fogo enfim tinha chegado ao traseiro do Papai Noel entalado, que se prometia, mais uma vez, começar um regime logo na segunda-feira.
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Não dá pra dizer que ele acordou com o barulho. Sempre dormira assim, sono militar, como dizia o Coronel Ponciano: um olho fechado e outro aberto. Mas agora nem isso. Era uma vigília contínua. Pior no fim do ano, quando se sentia mais sozinho: aos noventa anos, sobrevivente até dos filhos e alguns netos. A velhice também trouxe o medo, um medo esquisito, porque, se parava pra pensar de que tinha medo, não conseguia saber. Mas, na dúvida, comprou uma espingarda calibre doze de dois canos.
Engatilhou a doze antes de sair do quarto. As pantufas de pele de ovelha abafaram os passos. Na porta da sala, viu o vulto contra o retângulo da janela. Atrás a luz turva da madrugada.
Lembra que sorriu pro lado antes de atirar. Depois se viu de bunda no chão, derrubado pelo coice da arma. Por que disparara os dois canos?
Ainda tonto, acendeu a luz. Então a primeira surpresa. Não era um ladrão, mas o Papai Noel, com saco de presentes e tudo. Depois a segunda: ao desmembrar o corpo, para se desfazer dele sem chamar a atenção, descobriu que o Papai Noel era mulher. A barba, ao contrário do que ele pensava, era legítima.
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Era a última entrega, o dia se ensaiando no horizonte, ele podre de cansaço. Acostumado a trabalhar no escuro, viu muito bem o homem caído na sala, galhos do pinheiro sobre o rosto. O homem tentara se segurar quando levou os três tiros no peito. Perto da escada para o segundo andar, estava a mulher, de bruços, uma mancha de sangue no meio das costas. Ele ficou quieto um instante, pensando em procurar nos quartos, mas não teve coragem — afinal, criança era o seu negócio. Foi até um armário, se serviu uma dose dupla de uísque e a tomou de um gole. Depois, com todo o cuidado, limpou as digitais no copo, pôs os dois pacotes restantes ao pé do pinheiro e voltou para o trenó. Nem pegou as rédeas — as renas sabiam o caminho. Apenas resmungou um palavrão.

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