Tenho a maior admiração por estas pessoas que trabalham “mecanicamente”, como se não existisse, por trás de batidas de martelo e manejo de serras, um trabalho intelectual. Lembro de meu pai, pegando prego armazenado às porções na boca (o que lhe valeu uma úlcera) e meticulosamente, num ritmo todo próprio, pregar sola por sola, salto por salto, em sapatos que se sucediam ao passar dos dias como plantas que iam brotando do chão, junto à sua mesa tosca, coberta de restos de cola, de couro, de sola.
Também vejo minha mãe, ainda hoje, 82 anos, retirando as roupas recém- lavadas da máquina, pegando o banquinho plástico e, com agilidade de uma menina, nele subindo para alcançar a corda. Há pouco, ela varreu todo o apartamento, fez a primeira de uma série de limpezas de banheiro, correu ao supermercado ou ao armazém da esquina, encaminhou o almoço e ainda vigiou o passeio trôpego de meu pai no jardim diante do edifício.
Esta disciplina, esta vontade de viver utilmente, sem indagar muito qual seu papel na babel absurda que é a vida, esta noção de importância em fazer sua parte é que me deixam envergonhada cada vez que me deixo parar diante das dificuldades. E como parei, neste ano em especial!
Foi um 2009 pesado, livre de ser amaldiçoado sem dó nem piedade por um grande motivo: foi o ano em que minha filha pegou seu merecido diploma de arquiteta, formada em universidade pública e cumprindo seu estágio, estando agora diante de mais de uma proposta para mudar de trabalho, em reconhecimento a seu talento e a sua férrea disciplina.
Também tira 2009 da mira de minha metralhadora o fato de meu filho ter constituído família e estar feliz, pessoal e profissionalmente. Igualmente conta pontos a saúde de meus velhinhos, em que pese idade e coisas como cardiopatia, hipertensão, etc. E também minha saúde, apesar da descoberta da tal distimia, de haver perdido minha aposentadoria por culpa de não um mais de um sujeito sem caráter e, talvez em vista de eu estar em meio a um processo envolvendo o Poder (ah, o Poder), vários “amigos” terem sumido por não contar com mais um para dividir a conta em bares e restaurantes. Enfim.
Pensando bem, chego ao Natal de 2009 no lucro. E nem tinha me dado conta!
Sem trabalho formal, mas tão bem amparada pela família maravilhosa que tenho que posso ficar escolhendo o que e quando fazer.
Sem a corte dos que telefonavam para happy hour ou jantares em petit comité mas podendo reunir os que são de fé sem constrangimento de aceitar que cada um traga alguma coisa para a confraternização. E redescobrindo outros amigos, desta vez reais e honestos.
Sem resposta a curriculum enviado, mas certa de que já servi e muito bem a este mercado de trabalho que, ao mesmo tempo que precisa de sangue novo para vampirizar, não merece muitos que sabem realmente o que fazer e como funcionam os bastidores desta máquina.
Estou aqui. Estou viva. Dona de minha cabeça, de meu coração, de minhas determinações. Que envolvem limar para sempre o que e quem não importa, e cada vez mais trazer para perto os operários dos sentimentos e da construção do caráter que, a exemplo de meus pais, são os que realmente fazem a família humana valer essa classificação. Como diz a música do Tio Leoni, “os outros são os outros e só”.
