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Manual de boas maneiras para escritores

Uma noite dessas ouvi estas graves e sonoras palavras: a responsabilidade social do escritor. Quase tive um troço. Quase. Chegou a se formar uma …

Uma noite dessas ouvi estas graves e sonoras palavras: a responsabilidade social do escritor. Quase tive um troço. Quase. Chegou a se formar uma espuminha no canto da minha boca.

Vamos falar sério? Toda a responsabilidade de um escritor é escrever bem. Ponto. O tema é o de menos. O tema será o que der na veneta dele. O tema pode ser um gato tomando sol ou uma indiazinha, gorda de cachorro-quente com Coca-Cola, vendendo artesanato na esquina. Não interessa.

— Como, não interessa?! O mundo vai acabar amanhã! — grita o coro.

É mesmo? Dane-se o mundo, na hora de um poema sobre um sabiá ou de um conto erótico com a participação da vizinha. Se você está muito preocupado com o fim do mundo, escreva você mesmo e não encha o saco dos outros, que estão preocupados com outras coisas, ou que às vezes preferem apenas se divertir. Sim, a diversão é fundamental, o médico não te disse?

Não estou sendo leviano, não. Estou sendo claro, simples e honesto. A matéria de um escritor são as pessoas e as pessoas são mais complicadinhas que seus problemas econômicos ou policiais. Ninguém cabe nas linhas de uma cartilha, por mais bem intencionada que ela seja. As pessoas vão da sensatez ao delírio, da ternura ao ódio, do prazer ao desespero, do que você pode imaginar ao que você nem sonha, mesmo com a ajuda do Philip K. Dick ou de um chazinho de cogumelo. Raros escritores chegam ao cerne de uma pessoa, onde transparece isso tudo junto. Mas felizmente há outros escritores, há muitos, há legiões — e cada um deles pode nos dar um pedacinho do mundo. Melhor: pode nos dar um pedacinho visto por olhos diferentes.

Mas o que é escrever bem? Se você perguntar isso a cem escritores, é provável que receba umas oitenta respostas diferentes, no mínimo. Quer dizer, me dê um desconto. Me parece que se escreve bem quando no texto o papel das pessoas foi além do que cabe numa cartilha. Mas com um detalhe: não adianta o texto ser profundo. Tem de ter encanto. Como dizia Stevenson, se não tiver encanto, não tem nada.

Pode ser duro de engolir, mas a verdade é que ninguém tem obrigação de ler nada. O fato de um texto existir não aciona automaticamente o leitor, fora em caso de viciados excepcionais. Um texto tem de ser um exercício de lábia: a cada frase, tem que provocar, deixar curioso, emocionar. Se um texto não seduzir o leitor, como você espera que ele não prefira a telenovela ou o futebol?

O rabo da lagartixa

Todo mundo sabe, se a lagartixa fica com o rabo preso, o rabo se desprende e a lagartixa fica livre. Melhor ainda: dali a um tempo cresce outro rabo no bicho, que, em caso de novo perigo, também se desprende. Isso pode acontecer inúmeras vezes. O contratempo é no caso da perda do rabo ter sido numa situação de estresse: ele cresce menor. Mas duvido que uma lagartixa tenha uma vida tão longa e perigosa que acabe pitoca em sua melhor idade.

Os políticos morrem de inveja das lagartixas? Talvez, porque essa capacidade de libertação e regeneração é muito funcional. Mas o mecanismo desenvolvido pelos políticos também é uma das maravilhas da natureza: o rabo elástico — um rabo que estica infinitamente e dobra pra esquerda ou pra direita sem nem deixar marcas.

O que as mulheres querem?

Essa pergunta é muito mais velha que o Freud, evidentemente. Por exemplo, Chaucer a tinha feito, num dos contos de Canterbury, no século 14. Se procurarmos direito, ela vai aparecer em outros textos mais antigos ainda. Essa pergunta pode ter sido feita nas cavernas, logo que a linguagem foi criada, não é mesmo? Uma noite dessas vi a resposta que um bandido deu, num filme policial de quarta categoria: “As mulheres querem atenção, dinheiro e sexo oral”. Se for verdade, eu — bem, deixa pra lá.

Baixa entre os soleiristas

Morreu meu amigo João Alberto Figueiró, o principal filósofo de soleira, o criador da expressão num de tantos verões no Farol de Santa Marta, em Laguna. Nós nos conhecemos na faculdade de Jornalismo, depois pelos bares do Bonfim e praias de Santa Catarina, à sombra da ditadura. A última vez que eu o vi foi no Colégio Júlio de Castilhos, onde ele foi aluno, professor e diretor. Talvez tenha sido a pessoa mais inteligente e engraçada com quem cruzei. É pouco? Talvez a que mais tentava ser justa, examinando cada coisa de todos os ângulos possíveis, sem se deixar levar por qualquer tipo de religião, inclusive as políticas. Por isso, por tantas outras coisas, ele continua comigo, naquela soleira de onde na verdade nunca saímos.

 

Autor

Ernani Ssó

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