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A César o que é de César

Estava, ainda agora, organizando em uma pasta destas ordinárias, de plástico, documentos de trabalho de meu pai e de minha mãe. Dele, além da …

Estava, ainda agora, organizando em uma pasta destas ordinárias, de plástico, documentos de trabalho de meu pai e de minha mãe. Dele, além da Carteira Profissional emitida em 1949, para A.J. Renner, os muitos carnês através dos quais descontou, durante décadas, para a previdência social. Dela, afora a carteira de trabalho, igualmente de capa dura, marron, estão duas Cadernetas de Contribuição do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, finado IAPI. A mais antiga, “inaugurada” em abril de 1994, na Companhia de Calçados Ltda.

E ali estão, nas duas carteiras, em fotos, os dois, jovens então, com suas melhores roupas, olhando sérios para a máquina fotográfica. Waldemar e Luci. Fiquei manuseando um bom tempo estes registros que resumem horas e horas de jornadas extenuantes num papel acetinado já pardo e manchado, tentando fazer as contas para saber quanto valeriam, hoje, o CR$ 3.72 por hora que minha mãe ganhava em 1951, um ano antes de eu vir ao mundo e ela abandonar, em definitivo, sua vida de trabalhadora empregada formalmente. Ainda tentou, para o Renner que fazia apenas sapato naquela época, continuar em casa, ganhando uns caraminguás para ajudar nas despesas. Mas a forma, apoiada no estômago para trançar as tiras que compunham os sapatos em trecê, resultou em dor e uma lesão. Parou. Ficou como mãe e esposa, administradora do lar.

Meu pai, igualmente, deixaria a fábrica (onde hoje é o DC Navegantes) para, na raça, botar negócio próprio, a sapataria que ficou por quase 40 anos na Praça da Bandeira, diante do campinho de futebol na vila do IAPI. Descontou, certo de que teria uma aposentadoria nababesca, sobre vários salários, disciplinadamente. Acreditou no governo, coitado. Acreditou que as leis trabalhistas e sociais existem para proteger o trabalhador na velhice. Deu com os burros n´água, assim como minha mãe que nunca aceitou que ele seguisse pagando para ela porque achava que era dinheiro posto fora, que ambos viveriam muito bem com o que viria mais tarde. Hoje, mal ganham 1 mil reais e sei, dirão muitos, são privilegiados diante da maioria.

Só que meu pai não pôde se dar ao luxo de viver só da aposentadoria, concedida em 1982. Nem quis. Seguiu batendo prego, cheirando cola e comendo pó de lixadeira até 2006, quando voltou a ter derrames e a baixar hospital. Faz pouco, minha mãe vendeu toda a sapataria – do pé-de-moleque aos retalhos de couro. Toda uma vida de sacrifícios torrada por uma ninharia, para um colega que aprendeu muito do ofício de consertar calçados com seo Waldemar.

Guardei, deste inventário, cinco formas de ferro, de diferentes tamanhos, que encaixavam numa haste afixada na banqueta em que ele trabalhava e que serviam para enfiar os sapatos e arrumá-los. Durante minha meninice, participei, diariamente, da lida na sapataria de madeira, pintada de verde, ajudando a fazer grude para colar os papeluchos com nome do “freguês” e valor do serviço em cada sapato que, quando muito velho e feio, meu pai chamava “cascudo”.

Penso em tudo isso enquanto me dói o corpo inteiro, pela tensão nele despejada faz pouco, ao saber que, em definitivo estou sendo punida pelo Estado, este ente falsamente paterno, por um crime que não cometi. Perdi minha aposentadoria, não tenho mais o que fazer a não ser solicitar outra. A lei, no Brasil, é assim: o funcionário público e um despachante foram safados. Mas quem se ferra é a idiota que pagou a um profissional bem indicado para encaminhar a papelada e fugir da burocracia infernal que Marcelo Soares, em seu blog da MTV, ao me apoiar, tão bem exibe.

Como é previsto no caso, vou devolver o que recebi desde 2005 para os chamados cofres públicos. Para que uma massa de políticos corruptos possa ter direito a levar amigos e parentes em viagens ao Exterior, a morar, comer e beber regiamente. Para que Lula, que cinicamente se abastece num passado de pobreza, continue fazendo de conta que é um homem bondoso e justo enquanto agarra o osso do poder com unhas e dentes. Para que se cumpra, enfim, a lei. Que é absolutamente desigual e mais cega que a justiça.

 

Autor

Maristela Bairros

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