Acho hilariante acompanhar certos críticos literários e analistas econômicos. É tão evidente que não sabem o que dizem, como é evidente que escondem isso sob uma linguagem pomposa, séria pra cachorro e quase sempre obscura. Mas o que me dá o que pensar é que, se erramos tão redondamente em literatura e economia, matérias em que temos uma série de dados concretos em que basear nossos palpites, o que sobra para cartomantes, quiromantes e outros adivinhos? O que sobra, bem entendido, além da linguagem pomposa, séria e obscura?
Fico imaginando o cara que examinava as vísceras de um pássaro ou o fígado de um carneiro ou touro e interpretava os sinais que desvendavam o futuro. Tinha de ser uma pessoa de coragem extrema, ou de uma confiança nos deuses só superada pela do imbecil que o consultava, ou ainda ter a indefectível cara de pau dos trambiqueiros. Os erros constantes não abalavam nem o adivinho nem o cliente, porque as interpretações sempre podiam ser viradas do avesso para dizer o contrário do que tinham dito.
Quem não se comunica, se trumbica
Gore Vidal põe na boca do filósofo Prisco, em Juliano, uma observação que me parece certeira: por que os poderosos deuses, caso existam, não deram um jeito de se comunicar menos complicado do que mandar mensagens no fígado de um touro?
Relva
Relva é uma dessas palavras que a gente só encontra no dicionário e em más traduções. Pelo menos, jamais vi uma plaquinha num poste anunciando “corto relva”, ou “proibido pisar na relva” ou uma pessoa dizer relva a não ser de gozação, nem mesmo um dono de supermercado em Santa Catarina. É que o nome do negócio dele era “Reuva”. Confesso que, apesar da falta de acento, eu sempre lia “reúva”. Levei muito tempo pra me dar conta do que queria dizer. Sou péssimo em trocadilhos e jogos de palavras.
Não é que encontrei algo pior que relva ou reuva? Um dia desses topei com um terreno “desrelvado” na tradução de um romance muito do ruinzinho da Patricia Highsmith. Desrelvado? Minha nossa, se a moda pega! Imagina um terreno sem nenhuma árvore: desboscado. Uma planície? Um terreno descolinado. Um deserto? Um terreno desliquidado. Convenhamos, certos tradutores, editores e revisores deviam ser levados ao pelourinho. O número de chibatadas pra cada um? Até ficarem com o lombo despelado.
O processo
Não, não vou falar do Kafka, mas quase. Uma tia minha tem um pequeno sítio em Bom Jesus, nos Aparados da Serra. Uma vizinha, numa das tradicionais queimadas de agosto e setembro, se descuidou e o fogo passou por debaixo da cerca. Torrou uma boa parte de capim e uma parte de uma plantação de pinheiros. Minha tia registrou queixa na delegacia. Sabe o que aconteceu? Foi processada pelo IBAMA por crime ambiental: multa de dez mil reais. Diante da promotora, minha tia deu a real: podia botá-la na cadeia, porque ela não tinha de onde tirar os dez mil. A promotora, ao tomar conhecimento dos fatos, resolveu ajeitar as coisas: reduziu a multa a uns três mil. Minha tia continuou “preferindo” a cadeia, apesar de seus setenta anos. A promotora fez nova redução, parece que para dois salários mínimos, mesmo assim mais do que a aposentadoria da minha tia. A vizinha não foi nem interrogada.
Crítica de cinema
Estreia um filme, vou conferir o que dizem. Mas não dizem nada. A crítica cinematográfica se reduz a números: quantos milhões foram gastos para fazer o filme, quantos milhões o ator principal ganhou, quantos milhões o filme faturou no primeiro final de semana. Eu sou meio antiguinho. Vou ao cinema para ver um filme, quer dizer, assistir a uma história, não a uma sessão de contabilidade.

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