O que eu fazia quando não tinha internet? Sinceramente, não lembro. Ou nem quero lembrar. Parece que isso tem mais de 200 anos! Pior é a pose que a gente fica por se achar “in” especialmente quando encontra alguém que anda pra tudo que é virtual. E tem, claro que tem, muita gente avessa a entrar no mundo pela porta da rede. Há algum tempo, convidada para frilar para um caderno voltado às mulheres, de um jornal de Porto Alegre, propus pautas sobre o crescimento do uso da internet entre as meninas e especialmente as blogueiras e sua diversidade, muito além do tecnicismo masculino. Fiz, por conta (claro que com permissão), várias entrevistas com mulheres que criaram seus blogs, usando a ferramenta adequada para a ocasião: msn, mail, até orkut.
Só as matérias que fiz, comporiam tranquilamente, 80 por cento do caderno. Não usaram uma sequer. Além da descortesia evidente entre colegas (era só dizer que não valia a pena a pauta), ficaram evidente a falta de alcance e o reacionarismo do jornalismo em alguns veículos no que diz respeito a inserir (e inserir-se, sei que as duas expressões são horrorosas, as que fazer?) o que nem novidade mais é – a vida na web.
Não dá mais para viver a comunicação ignorando ou menosprezando a ferramenta e o que vai além da ferramenta, do utilitário. Vivenciar online a vida é vivenciar o futuro, não tem perdão pra quem está fora.
Tenho ouvido muita desculpa por aí para justificar a não-adesão a facebook, twitter e até mesmo msn, para ficar só nos mais conhecidos, incluindo aí o orkut que deixei por duas vezes por achar popularesco (preconceito meu, reconheço) e que esta semana virou notícia ao se modernizar. A maior parte se diz sem tempo para “tanta coisa”, outros choramingam “não sei mexer nisso”, e tem até quem diga que está fora porque não tem interesse neste exibicionismo que só afasta o cerumano um do outro. Haja paciência. Haja burrice.
Em compensação, cada vez mais conheço sessentões de boa cepa que não têm medo de fazer bobagem tampouco de pedir ajuda para entrar na dança do www. No fundo, a resistência se resume mesmo à má vontade com vergonha de confessar que não tem familiaridade com a linguagem e os meios. Quem fica nessa não sabe o que está perdendo.
De há muito viver na internet deixou de ser alienação e perigo de curto mental, de afastamento entre as pessoas, de fim de relacionamento real em favor de ilusões. Até os sites de encontros hoje têm mais credibilidade e não são poucos os que se acham por aí, seja para um encontro seja para uma relação legal. Já disse uma vez e vou morrer repetindo: é um privilégio viver esta época. Principalmente eu e os meus pares que dedilhavam velhas remingtons e olivettis desdentadas, preenchendo laudas e laudas com linhas numeradas, em geral escritas a mão e corrigidas a máquina, tantos eram os erros.
Aliás, lembrei agora que havia gente no velho Correio do Povo, quando eu trabalhava em outros veículos da Caldas Jr. que lhe eram contemporâneos, que entregavam seus originais a mão – havia gente para “bater a máquina” estes textos.
Hoje, cá estamos, conversando com gente do Alasca como se fosse nosso vizinho de porta. Precisa inglês? Com boa vontade, emoticons e outros gadgets, precisa mais é querer estar esperto e fazendo parte não de um clube fechado, mas da família dos homens que, desde as cavernas, lutam desde que nascem para uma só coisa: se comunicar.
