A série Roma deixou muita gente com a boca mais aberta do que bacalhau na peixaria, como diria o Louis Robert Stevenson. É que se pensava que o vale-tudo sexual fosse uma invenção da televisão dos dias de hoje. Ou pelo menos uma tia minha pensava.
O cristianismo trouxe uma coisa boa, mesmo que tenha plagiado de outras religiões, junto com rituais, festas e até datas: a ideia de que a vida é valiosa, que deve ser respeitada, que a bondade tem a força. Claro que para fazer essa ideia valer os cristãos não consideraram valiosa nem respeitável a vida de seus opositores, nem a de muitos aliados que atrapalharam ambições pontuais. Nada de surpreendente. Esse parece ser o esquema, sempre.
Mas o cristianismo é culpado por apostar tudo no outro mundo e criminalizar o corpo e suas funções. Apostar no outro mundo é um lance esperto para driblar este, ou idiota, doente e covarde? No mais, enquanto as pessoas não se sentiram culpadas por ter sede até de água, nem falo de cerveja ou vinho, os cristãos não apagaram o facho, diga-se, com trocadilho e tudo. É uma pena. Os pagãos só precisavam descobrir o pudor.
Feira do Livro
Não sei se vocês lembram, mas antes o pessoal da organização da Feira do Livro se reunia e escolhia o escritor a ser homenageado. Como chegavam ao nome, não sei, nem interessa. Às vezes a homenagem me parecia justa, às vezes apenas política e às vezes um mistério inextricável como a Trindade. Mas e daí? Célavi, como dizemos em ano de homenagem à França.
De uns tempos pra cá, inventaram essa moda, fazer uma lista de homenageáveis. Daí enrolam uns meses, fazem suspense e, depois de várias votações, salta um nome da dita lista. Por que isso tudo? Por que os escritores são obrigados a simularem uma espécie de corrida no prado? É como se a organização da feira quisesse fazer esses escritores sentirem o poder que ela tem, antes de homenagear. Não me parece muito gentil, para dizer o mínimo.
Que eu saiba, apenas Sérgio Faraco se recusou a concorrer à homenagem.
Contexto
Os acusados de meter as garras em grana pública alegam que suas conversas gravadas pela polícia estão fora de contexto, mesmo quando são mais transparentes que as roupas íntimas da Paris Hilton. Isso me lembra o caso daquele sujeito flagrado roubando um porco — olhou para o porco sobre o ombro e, assustado, berrou:
— Tira esse bicho daí!
Agora, coisa intrigante é que jornalistas experientes aceitem passivamente alegações mirabolantes de inocência. Como esses jornalistas não aceitaram outras, mais verossímeis, de inimigos políticos, a gente fica pensando que eles também estão fora de contexto. Ou, pelo contrário, estão muito bem inseridos no contexto.
Ano meteorológico
Não me lembro de outro ano como 2009. Li muito mais a seção de meteorologia dos jornais do que a seção de escândalos políticos. Me senti pequeno, insignificante, primitivo — um personagem do Velho Testamento, encolhido num canto pra escapar do patriarca de belas barbas brancas agoniado pelas fúrias e ranzinzices da melhor idade.
Freud explica
A impressão que dá é que, se existisse Viagra no tempo do Velho Testamento, Deus seria bem mais mansinho.
Crentes
O principal problema dos crentes é que esperam que todos nós vejamos a vida com os olhos deles. Ou melhor, o problema é que tratam de nos obrigar, às vezes com uma faca no pescoço, a ver com os olhos deles. Não adianta você argumentar que é o mesmo que um daltônico querer nos obrigar a ver o mundo colorido dele.
Preferências líquidas
Champanhe? Vinho tinto? Conhaque? Tequila? Cerveja? Nada disso. Gostaria que meu texto fosse como suco de laranja, que se deve tomar todo dia.

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