Sempre que se fala em sabedoria popular, me lembro desta expressão: maus bofes. A maior parte do que passa por sabedoria popular se chama conformismo, tacanhice, covardia. Mas a sabedoria popular existe, ou o instinto, porque muito antes de Marx atribuir tudo a fatores econômicos e de Freud garantir que o buraco era mais embaixo — embaixo do couro cabeludo, ou couros cabeludos? —, as pessoas sabiam que biologia é destino. Não é nada fácil para nós, criados à imagem de Deus, descer de nariz empinado a escadaria da versão romântica de nós mesmos e admitir que nossa amada alma possa, por exemplo, depender da falta ou excesso de açúcar, ou de seu mau processamento por nosso corpo, para ser atormentada ou não. Acho um bom exercício a gente não esquecer do fígado, estômago e outros miúdos menos votados na hora da metafísica. Ou vice-versa, por supuesto.
Fantasias cabeludas
Houve uma época em que li muito o Robert A. Heinlein, autor que criou ótimos alienígenas, quer dizer, incompreensíveis para nossa razão e de aparência nada humanoide. Ele é muito fluente e muito engraçado, mas é do tipo que acha o homem, apesar de tudo, o rei da criação — na verdade está mais para prefeito ou vereador da criação —, sem falar que duas e três tinha surtos de patriotismo explícito, coisa muito perigosa num americano. Um traço simpático da personalidade dele, bater de frente com ideias estabelecidas, às vezes vira mania, ou uma espécie de profissionalismo. Até aí, eu seguro. O que me incomoda um pouco são fantasias como: a convivência celestial — alegre e sem conflito algum — numa comunidade onde o sexo é livre; destruir o mundo numa guerra nuclear pra ficar sozinho com a noiva do filho; ou voltar no tempo pra comer a mãe na flor da idade. Essas fantasias e outras mais escabrosas existem, claro, e precisam ser examinadas e tudo o mais, mas não da perspectiva de um menino de treze anos fingindo seriedade, entretido com um enredo complicado pra justificar a masturbação. O humor feroz do Heinlein se voltou contra tudo e todos, menos contra o primeiro e melhor alvo: ele mesmo.
Por que ler Jorge Luis Borges
Por coisas como este trecho do ensaio “El idioma analítico de John Wilkins”, no volume Otras inquisiciones: “Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas”.
Papo de corruptos
Li a transcrição de alguns telefonemas dos trambiqueiros que meteram a mão no Detran, ou o corpo inteiro em alguns casos. Não me impressionou o descaramento nem a avidez deles, mas o português: caramba, como falam mal — frases truncadas, concordâncias erradas, repetições idiotas e, pra completar, grosserias de torcida organizada. Péssimo exemplo para a juventude. Pra que estudar se para ser da classe governante basta não ter caráter?
Folguedos acadêmicos
“O enquadramento sistêmico focaliza seu olhar na conectividade relacional.” Quando digo que as palavras são uma cachaça braba, que seu vício é mais nocivo que o do crack, tem gente que acha que exagero. O acadêmico que escreveu essa frase aí teve os mesmos orgasmos que José de Alencar ao escrever Iracema. Não, os mesmos não. “Conectividade relacional” dá um orgasmo de tipo científico. “Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda”, um de tipo poético. Isso se examinarmos a questão de dentro. Porque de fora o tremelique parece um só.
Deu no jornal
O anúncio das bombas supositório aumentou o medo do terrorismo. Mas, vai ver, devemos ter esperança. Pode ser que muitos terroristas, ao se preparar para o atentado, descubram o sentido da vida e resolvam viver em paz.
Curiosidade boba
Se o crime não compensa, por que imunidade parlamentar?

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