Lacan: “O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Eu, hein, Rosa?! Elizabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista, autora de Jacques Lacan — Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, considera essa tirada genial. A mim parece apenas um jogo de palavras vazio. Mas sou suspeito para falar, esses jogos de palavras quase sempre me parecem vazios, se não são do Oscar Wilde.
Lacan também disse mais ou menos o seguinte: o eu não se adapta à realidade, o eu adapta a realidade a ele. Isso sim é ótimo. Fica claro, pelo livro da Roudinesco, que os relacionamentos de Lacan com as amantes e com as esposas se encaixam direitinho na sua definição de amor. Quer dizer, Lacan, em vez de olhar o bicho no olho, deu um jeito na realidade para ela se parecer com o que ele pensava?
O iluminado obscuro
Michel Foucault afirmou que o hermetismo de Jacques Lacan vinha do desejo de que “a obscuridade de seus escritos fosse a complexidade mesma do sujeito e que o trabalho necessário para compreendê-lo fosse um trabalho a realizar sobre si mesmo”. Então tá, boneca. Vamos apagar a vela porque é noite.
Há uns dois mil e quinhentos anos, em Atenas, Péricles disse: “o que sabe e não se expressa claramente é como se não pensasse”. Pena que ninguém mais se lembra disso. Ou não leva a sério.
Relendo Kafka
Lembro que na adolescência, quando topei com o Kafka, fiquei muito desconfiado: era só eu que achava que ele era um grande humorista? Aos poucos descobri muitos parceiros de crença. O próprio Kafka, ao ler seus manuscritos para os amigos, ria de chorar.
Há uns anos reli O castelo. Fiquei muito desconfiado de novo: em meio a tantas interpretações — onde predomina a busca infinita por Deus, pelo pai, pela autoridade —, não lembro de ter lido o que vi no romance. K. foi contratado pelo castelo como agrimensor mas ninguém sabe nada e todos os seus esforços para saber são inúteis. Esse padrão se repete em todas as cenas. Cada coisa que acontece não é o que parece ser. Logo depois de acontecer, alguém explica os motivos e vemos o fato de outro modo. Quando estamos convencidos, vem outro personagem com uma explicação nova e também convincente. Assim vai. Em pouco não sabemos exatamente o que foi que aconteceu nem por quê. Estamos soterrados pelas versões.
Estranho? Não me parece nada estranho. Isso nos acontece todo santo dia com cada coisa. Só que, mais acomodados que K., aceitamos uma das versões como a verdade e tocamos o barco.
O golfinho da Xuxa
A imprensa é um espelho alucinante de nossos anseios e preocupações. Dez autores brasileiros lançam livros? Ninguém sabe, nem se importa. A Xuxa, num evento em que o livro é o personagem principal, se abaixa, mostra um pedaço da bunda e forra jornais de fotos e comentários. É justo, ela tem um golfinho tatuado no rego.
Xuxa pra academia
Não vejo a hora em que a Academia Brasileira de Letras proponha à Xuxa sentar seu golfinho na cadeira que foi de Antônio Olinto. A Xuxa não tem uma obra literária? Como não? Ela tem o seu twitter, onde defende os erros de ortografia da filha (mas esquece do pior, a total banalidade do que é dito), obra bem maior que a de muitos outros acadêmicos.
Dicionário do mau digitador
oOo Fisioteraputa. Um mau profissional ou um profissional muito bom. oOo Intinerário. Itinerário íntimo. oOo Maostrar. Informar sobre a China de certo período. oOo Ortiográfico. Aquele tio que nos ensinava gramática. oOo
Por falar em Wilde
Não é de ontem, ou da semana passada, a fama das academias. No Retrato de Dorian Gray, há o seguinte diálogo:
— Devo ir ao Ateneu. Está na hora de dormirmos lá.
— Os senhores todos, sr. Erskine?
— Quarenta de nós em quarenta poltronas. Estamos praticando para uma Academia Inglesa de Letras.

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