Colunas

Quase primavera

Vontade de ficar absolutamente up! De entrar a tal Primavera vestida como naqueles anos 70, de fé absoluta no divino, de pouca desconfiança no …

Vontade de ficar absolutamente up!

De entrar a tal Primavera vestida como naqueles anos 70, de fé absoluta no divino, de pouca desconfiança no mortal, de curiosidade sobre o que viria.

Vontade de dançar, sem medo de pagar mico, de inventar passos e rir, e rir, e rir como doida varrida, só pela alegria de rir.

Vontade de correr de novo, como em criança, sem sentir as pernas de tão rápido, vento na cara, adrenalina toda, só para brincar de voar.

Vontade de levantar bem cedo, tomar o café com leite de garrafa que a mãe fazia com o pão de quarto de quilo, a biqueira dele, com manteiga e banana esmagada.

Vontade de tomar banho em sábado luminoso, a mãe lavando o cabelo da gente, depois secar, ao sol, com a toalha sobre os ombros, bem penteada, bem lambida.

Vontade botar a japona azul-marinho, lã grossa, touca de tricô, manta no pescoço enrolada, pasta preta velha carregada de cadernos encapados com papel cheio de borboletas em fundo rosa, e sentar na carteira maltratada do grupo escolar Gonçalves Dias.

Vontade de balançar na corda com pneu no galho do cinamomo, em frente de casa, depois de ajudar a enxugar a louça e ouvir novela no rádio marron de baquelite com seu alto-falante que roncava.

Vontade de me espichar em cima do balcão da sapataria pintada de verde, na praça diante do campo de futebol, e olhar os rios que a chuva fazia caindo grossa e fazendo barulhão no brasilit, a lixadeira ligada, o cheiro de tinta, de cola, de couro, de poeira.

Vontade de abraçar o velho Lobo, bom cachorro, que levava bilhete atado no pescoço, língua de fora, fazendo curva fechada, sem parar nem para mijar, só pela felicidade de logo receber o afago do dono na sapataria, a água fresquinha na bacia de alumínio amassada, banho de mangueira em fim de sexta-feira.

Mais uma sexta-feira. Nada a escrever. Tudo a lembrar. Nó na garganta.

Enterrar a objetividade. Viver de passado. Esquecer feitos e desfeitos. Se misturar com tudo e todos e continuar assim até este sabiá cansar de cantar.

Lá fora, tem tanta notícia pra ler, tanta informação, tanta obrigação, tanto faz-de-conta, tanta não-alegria.

Vontade de não ser chata. Mas, assim mesmo, ser.

Bom fim de semana a todos.

 

Autor

Maristela Bairros

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.