“O Estranho Caso de Mister Wong
Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia…
Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!”
(Mario Quintana, em Sapato Florido)
A notícia da morte de Mário Quintana não me emocionou. Eu a esperava há mais de um ano. Mas isso explica? Um pouco talvez. O certo é que a notícia não tinha realidade nenhuma pra mim. Era meio como essas notícias sobre um terremoto na China, em que a distância torna abstrato o horror, revelando ainda o absurdo matemático de que pouco importa se as vítimas foram duas ou duzentas.
Quando vi as últimas fotos dele, pensei: como o fotógrafo não tremeu a mão? Não era apenas a velhice, a doença. Quintana parecia não estar mais entre nós. Restava um sinal nos olhos. Fácil pensar em tristeza, em despedida — porque é fácil não quer dizer que não fosse isso mesmo. Mas pensei adivinhar algo mais, uma perplexidade resignada, como se o flash alertasse Quintana por um segundo: o mundo dos vivos ainda existe — e esse mundo já tinha se tornado incompreensível. Aquela curiosidade e nostalgia com que Quintana tantas vezes falou da morte agora estavam voltadas para a vida. Agora, que podia encarar o mistério da morte de homem pra homem, Deus tirava o corpo fora.
Literatura, quem sabe? A verdade é que não consegui olhar muito para as fotos. Incomodado, virei rápido as páginas do jornal. Era como se Quintana, um homem que defendia sua privacidade com uma língua mais rápida do que o Wild Bill Hickok e não menos mortal, estivesse indefeso, se perguntando por que não o deixavam em paz na sua hora mais íntima, a hora em que morria.
Tio prodigioso
Falo na primeira pessoa porque não sou um crítico, apenas um leitor e porque, como muitos outros leitores, eu amava Mário Quintana. Podia admirá-lo, como se admira muitos poetas, mas não. Se o admirei, foi como uma criança comportada admira uma criança traquinas. Ou como uma criança admira o tio solteirão e excêntrico, o prodigioso tio que vem de uma vida de aventuras e segredos, o tio que apenas com sua presença parece pôr em xeque a existência tão dona-de-casa de mamãe e tão funcionário-público de papai. Esse tio era capaz de brincar com a gente sem dar a impressão de estar condescendendo, pelo contrário. Nunca tive um tio assim. Ou melhor, tive, foi Mário Quintana.
Saber que Quintana existia, que estava por aí tramando uma das suas, era bom, uma prova de que o mundo não é só horror e piedade. Mas, volto a insistir, não porque era o melhor poeta do sul e sim porque na poesia dele se entremostrava uma pessoa que topava a parada da — que remédio! — vida. Topava alegre, triste, irônico, mas sempre terno. Topava sem queixas, sem lágrimas, mas sem submissão.
Poeta impuro
Fui sempre um devoto do humor e da ironia de Quintana. São suaves. Quintana não era do tipo bombardeiro, um Mencken, que destrói tudo e ainda sapateia em cima. Esses fazem o serviço completo, sem deixar nada para nós, leitores, como se tivessem certeza da nossa universal estupidez. Desejam seguidores. Se não os seguimos, é porque somos burros, claro. Se os seguimos, ótimo, somos o máximo, mas nem um pio, sim? Com Quintana o jogo é outro. Quintana levanta dúvidas, incongruências. Compartilha descobertas, espantos. Insinua. Há sempre a confiança de que o leitor pode seguir por conta própria. Não é por nada que ele foi um fã das reticências. No fim, isso me parece mais eficaz, porque é mais fácil a gente aceitar um convite do que obedecer a ordens.
Não acho estranho que junto com o piadista inveterado conviva o poeta lírico. O estranho é que Quintana tenha conseguido equilibrar os dois, ou melhor, os três, porque entre o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde havia o velho Mr. Wong. É uma façanha, mesmo que ele, por amor a Cecília Meireles, se diga um poeta impuro, justamente por causa das intervenções de Hyde e Wong. Quer dizer, ele era um poeta impuro, mas o diabo é que a palavra impuro parece diminuir o poeta, quando devia ser o contrário. A impureza é sinal de uma poesia mais complexa, mais próxima da vida, senhora que, todo mundo sabe, não vê problema em comer bolo inglês com água tônica, ou melancia com farinha de mandioca, para não usarmos exemplos muito distantes da mesa.
Outra façanha, badalada pra chuchu e pouco seguida, é a naturalidade. Em muitos momentos, parece que o poema se fez sozinho, sem intervenção do poeta. É meio como se o poema sempre tivesse existido e num incerto dia Quintana topou com ele. Mas não é bem assim. Quintana explicou numa entrevista à defunta Folha da Tarde, de Porto Alegre, em 1975: “Há coisas que vêm como canções, assim o poema. Logo, ele exige forma. Quando começo a fazer um poema eu não sei como ele vai ser, como vai sair. Mas não cai do céu. É preciso lutar até que ele diga o que tem para dizer. O poeta nada mais faz do que ajudá-lo. É aquele trecho da Bíblia que me impressiona: Jacó lutando contra o Anjo para que ele o abençoe”.
Bonito isso, não? Bonito e preciso.
Esse negócio do poeta apenas ajudar o poema a dizer o que tem a dizer anda me preocupando. Em grande parte da poesia ou prosa que leio, noto demais os autores, ou porque se exibem fazendo frases, ou porque querem nos surpreender com adjetivos estranhos, ou porque o esforço da luta contra o Anjo sufoca a Bênção, ou simplesmente porque sei como tudo foi feito. Há uma arte de parecer sem arte? Cada vez sinto mais que só há arte se não parece arte. Acho que Quintana disse o mesmo, em A Vaca e o Hipogrifo (Editora Garatuja, 1979): “Se alguém acha que está escrevendo muito bem, desconfia… O crime perfeito não deixa vestígios”.
Historinhas
A prudência manda que eu pare por aqui. A América já foi descoberta por colombos mais atilados, como Fausto Cunha, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, para ficarmos apenas na primeira caravela. Melhor contar historinhas, como aquela do meu primo Cezar, velho leitor de Quintana, que o via seguido pela Rua da Praia. Nunca falou com ele, ao contrário de muitas pessoas, principalmente depois da badalação dos 70 anos do poeta. Uma tarde, os dois tomavam cafezinho no Rib’s, lado a lado. Aí entrou um homem que, mal viu Quintana, abriu os braços e o berro:
— Poeta, como estás?!!
Toda a clientela se voltou para o poeta. O poeta, sem tirar os olhos do balcão, pelo canto da boca, resmungou de forma quase inaudível:
— Puxa, tou ficando manjado.
No tempo da editora da Mary Weiss, Garatuja, cruzei algumas vezes com Quintana. Não deu em nada. Eu era um adolescente boboca e o poeta, sabe-se, a timidez em pessoa. Solitário também, eu tinha horror só de pensar que poderia incomodá-lo. Quando precisava dele, relia seus livros, Caderno H em primeiro lugar. Mais tarde Esconderijos do Tempo.
Em 1975, ou 76, com o cartunista Santiago, os publicitários e humoristas Guaraci Fraga e Luís Carlos Pacheco, fomos a Caxias do Sul levar Quintana para a inauguração de uma feira do livro. Quase que só o espiei o dia todo. Lembro de duas situações, uma constrangedora e outra divertida. A constrangedora, claro, foi a cerimônia solene. Num canto da praça central, apenas uma barraca, nós e umas três ou quatro autoridades. As ditas cujas discursaram e em seguida se voltaram para Quintana. Houve um silêncio desgraçado de comprido. Estavam à espera de que Quintana, com um gesto ou uma palavra, no mínimo povoasse aquela praça de leitores vorazes. Quintana, embaraçado, abriu os braços e balbuciou:
— Então se considere inaugurada a feira do livro.
Após os aplausos, tiramos rapidinho o poeta de cena.
Como era de se esperar, nos levaram para passear. Se não me engano, foi em frente à igreja com as famosas pinturas de Locatelli, numa subida, que o motorista estacionou. Todos nós, jovens, saltamos do carro. Quintana, no banco de trás, se inclinou para a frente, mas não deu: voltou ao fundo do assento. Tentou de novo e de novo não deu. Nós, na calçada, olhávamos apatetados. Depois da terceira tentativa, Quintana se recostou com um suspiro:
— Eu, só com cesariana.
Acho que a parteira foi o Fraga.
Podia ao menos ter contado a Quintana que nesse tempo eu tinha viajado de carona, com aquele mesmo primo que o veria no Rib’s, por boa parte da costa de Santa Catarina. Na mochila, um livro: Caderno H. Meu primo me garante que também levamos Don Quijote numa edição quase microscópica, em corpo seis ou oito, onde guardávamos o dinheiro. Só lembro do Caderno H. Por que será que o levei? Eu o sabia quase todo de cor. Não satisfeito, ainda tinha sublinhado os trechos preferidos, quer dizer, uns oitenta por cento do livro. Devia ser uma forma de comemoração, um sinal de alívio por descobrir que não estava tão sozinho no mundo como pensava.
Numa praia, de cujo nome não quero me lembrar, dei meu Caderno H para uma namorada. Era sério o caso, porque não costumo dar livros para quem não os merecem. Mas, pensando agora, acho que foi também uma forma de me proporcionar uma folga de Quintana, tanto que levei anos para comprar outro Caderno H, que, impenitente, voltei a sublinhar com a mesma fúria. É possível que eu me sentisse um tanto sufocado pela personalidade do poeta. Em 1998, ou 99, relendo-o, me dei conta da profundidade da sua influência sobre mim — influência que vai além do texto, da técnica, abrangendo minha visão das coisas, meu projeto de vida, como foi com a influência de Cortázar e de Borges. Acho bom sublinhar isso: mais uma vez fica demonstrado como é difícil distinguir entre o ato de escrever e o de viver, onde termina um e começa o outro. Quando digo escrever, podia dizer ler, não? No entanto, há quem goste de pensar que os atos de escrever e ler usurpam o de viver, o que significa forçar uma separação e encher demais a bola da experiência direta. Não desprezo evidentemente a experiência direta, pelo contrário. Mas ela só chega à plenitude quando filtrada pela nossa sensibilidade, inteligência e imaginação, territórios sob o fogo da literatura.
Últimos tempos
Em 1993, na época do aniversário dele, pensei escrever um artigo intitulado “O ABC da Literatura Segundo Mário Quintana”. Reli tudo, anotei tudo, mas nada. Deixei para depois e aí fui atropelado pelos fatos. Não desisti ainda. Quintana tem muitas observações certeiras sobre a arte de escrever, como aquele verso que diz que fora do ritmo só há danação. Claro que saber que fora do ritmo só há danação é pouco, não ensina ninguém a sentir e seguir o ritmo num texto. O exemplo da obra de Quintana é mais eficaz do que esse tipo de observação. Mas lembro que eram justamente essas observações que eu sublinhava com mais veemência. Deve ser porque a gente, em fase de formação, necessita se repetir certas coisas como uma fórmula encantatória. Ou, digamos de um modo mais simples, essas observações são como um mapa, um mapa que a gente decora, que a gente quer parte do nosso sangue e gestos para poder se meter mais tarde na selva, apenas com a cara e a coragem. Meu pobre artigo seria uma tentativa de entender melhor esse processo, de ordenar para os preguiçosos as indicações deixadas por Quintana e ainda um agradecimento a ele pela mão(zona)zinha que me deu. Mas, como tantos outros agradecimentos, não saiu da minha cabeça.
Além dos livros, tinha o próprio Quintana, o personagem em que se tornou. Há mil histórias sobre sua boemia, sua solidão, sobre seu bom e mau humor, cada um mais espirituoso do que o outro. O que impressiona é que, ao contrário das pessoas que costumam virar personagem, quando a gente o conhecia melhor, não se decepcionava. Quintana quase sempre esteve à altura do personagem Quintana.
Nos últimos tempos, com tantas homenagens, surgiu esse negócio de anjo. Foi uma tentativa de institucionalizá-lo, de fazê-lo doce e apenas doce, ou pior, de torná-lo um pobre-velhinho-desamparado. Lembro, por exemplo, daquela história do fechamento do Hotel Magestic, onde ele morou por doze anos. No dia em que saiu, um séquito de repórteres o seguiu rua afora e uma moça da RBS TV, apressada ao seu lado, perguntou dramática:
— E agora, o que o senhor vai fazer?!
Quintana nem diminuiu o passo. Nem olhou para a repórter. Disse entre dentes:
— Realmente, minha filha, trata-se de um grave problema nacional.
No dia da morte, pensei: isso vai piorar. Vão transformar o velório e o enterro numa sessão de canonização, de desagravo pelas três mancadas da Academia Brasileira de Letras, como se alguém com meio miolo pudesse levar isso a sério. Talvez estivesse aí minha indiferença. Era como se nos últimos anos, com constantes notícias de comemorações oficiais, Quintana tivesse sido encoberto. Esse Quintana ligth que me ofereciam não tinha nada a ver comigo, o que não quer dizer nada, mas não tinha nada a ver com o Quintana que escreveu que preferia ser alvo de um atentado que de uma homenagem, porque era mais rápido e sem discurso. Pensei que como tantos marginais, Quintana no fim se deixou enlevar pela vaidade, ou sentia isso tudo como uma espécie de desforra pelo silêncio e incompreensão que marcaram quase toda a sua vida. A verdade é que não abandonou a ironia. Chegou a dizer que eram tantas homenagens que não tinha nem tempo para morrer. Quer dizer, dava a entender que essa fofoca toda sobre ele era a outra face do silêncio, outra forma de incompreensão. Jekyll recebia as homenagens, mas Hyde continuou impávido olhando os decotes das vizinhas e Wong contando os carecas na platéia.
Em momento algum me ocorreu ir ao velório ou enterro. Se der, quero ver se não compareço nem aos meus. Depois teria de disputar espaço com políticos e outros metidos ou ficar à margem. Se era para ficar à margem, então eu bem podia ficar em casa mesmo. Claro que se não tivesse ninguém para ir lá, eu iria. Agora, confesso, quando vi na televisão, me arrependi. O enterro do Quintana, após as lágrimas e as declarações oficiais, teve música e dança. Foi na hora da festa que me emocionei. Foi nessa hora que tive a consciência da perda do poeta. Foi nessa hora que reencontrei o velho Quintana de sempre.

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