Oi, pai.
Sem medo de não ser original, escrevo para ti porque, bom, afinal de contas, neste domingo é o tal Dia dos Pais. Sim, eu sei. Tua memória anda ruim, o sono é cada vez maior e insistente, assim como tua ansiedade de octogenário que se envergonha de ter, agora, as mãos lisas em vez dos dedões com impressão digital retalhada pela faquinha de aço que cortava sola e couro. Sei também que ando impaciente, vergonhosamente impaciente contigo, com tuas perguntas repetidas que esquecem as respostas mal elas tenham sido dadas.
Desculpa, não consigo agir diferente. É que tu, este homem que chora por qualquer coisinha, em especial quando lembra de qualquer fato do passado, em geral embaralhado ou recriado, não é aquele mesmo Waldemar que eu conhecia. Aquele, que, com maestria, alternava as batidas do martelo em cima do pé-de-moleque com a ágil retirada de uma por uma das tachinhas que colocava na boca, sem engolir uma que fosse. E isso era mágico para aquela guria magricela que passava as tardes contigo na sapataria, em geral misturando todos os pregos com o íma em cima da caixinha de madeira cheia de divisões. Também não te reconheço nestes passos trôpegos, mais parecendo um robozinho gordote, porque o pai que eu tinha andava ligeiro até bem poucos anos atrás, e até sumia nas manhãs de domingo para desespero e fúria da mãe, em alegadas longas caminhadas que, descobriríamos depois, eram uma outra e malandra história.
Continuas igual, no entanto, no humor pesado, aquele que te fazia fingir que ias botar o dedo no prato da gente só pra ver a gente resmungar de nojo, o mesmo humor que também resultava em tuas exclamações de surpresa bem gaúchas, num tom que sempre nos assustava e incomodava, porque parecia tão fora de lugar e propósito. Igual também te mostras naquela pressa em devorar tudo que vem à mesa e que foi o eterno motivo de críticas lá em casa, porque, segundo a mãe, não te alimentavas, apenas engolias a comida sem ao menos sentir-lhe o sabor. Só que, agora, a gente corta a carne pra ti, com medo de que esta estouvação toda te engasgue. E tu só ris deste cuidado, esta “besteira, guria!” com que reclamas no fundo, no fundo, faceiro por estar sendo tão cuidado.
É muito estranho e angustiante te ver andando pela casa, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a frente da televisão que ligas e desligas toda a hora, e dali para o banheiro e depois para a porta, que abres sem razão, sem falar nas espiadas na janela, a todo momento, sempre se segurando na parede, nos batentes, nos móveis. Onde andará aquele cara musculoso, magro e bonito, com cabelo preto ondulado, que, a cada começo de noite, retirava o avental de lona pela cabeça e o batia, vigoroso, nas pernas, para dele retirar os restos de pó, embora a cola nunca mais dele saísse, e passava, diante do espelhinho pequeno fincado no prego perto da porta da sapataria, aquele pentezinho de nada que guardavas no bolso e ainda hoje ficas procurando quando vais sair?
Que fim levou aquele homem rude que, por mais de uma vez, me deu medo só de me olhar torto quando eu fazia qualquer arte, ou que me fez chorar a cada aula de direção no velho DKW branco e no pobre fusca vermelho que terminei por enfiar num poste, num dia de domingo, contigo e a mãe dentro?
Tenho algumas fotos tuas, não muitas, porque pobre não podia se dar a este luxo: a da primeira comunhão com tio José, os dois com calças emprestadas dos irmãos maiores, a bainha toda enrugada sobre o sapato; as do quartel, de quepe, orgulhoso, posando como motorista de jipe;o braço sobre o ombro da mãe, um topete enorme e um bigodinho canalha, na varanda de uma casa que não conheci; com um copo na mão, de terno e gravata, ao lado da mãe que me carrega, um embrulho de poucos meses, no colo, em algum remoto aniversário. E depois, nos meus 15 anos, com meu sapato que pintaste de dourado. Mais tarde ainda, com Lourenço e Manu no colo, o tempo já passado, as primeiras rugas, o olhar mais entristecido.
De agora, temos muitas e muitas fotos em que teu rosto agora redondo e quase sem expressão e o olhar vago mesmo que olhando para a câmera tornam a cada dia mais longe o meu pai de antes. No entanto, estás aqui e vais passar mais um Dia dos Pais com a gente, mimando a Docinho como nunca te vi acarinhar nenhum de nossos cães, chamando os netos de fofinha e fofo apesar de serem ambos bem crescidos para isso, tentando contar novidades e rindo, apesar da minha casmurrice quando teus esquecimentos se manifestam. E eu, aqui, mesmo doída de ter perdido aquele pai que eu tinha, o homem caladão de afeto contido nas mãos calosas lavadas com sabão de mecânico, agradeço a cada dia por simplesmente estares aqui. Então, Feliz Dia dos Pais, seo Waldemar Bairros. E desculpa estar tão mais velha que tu.
