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Cadela de inflar

Foram lançadas as primeiras cadelas de inflar. Isso mesmo, cadelas macias de borracha, com profundos olhos castanhos e vagina de silicone, para o seu …

Foram lançadas as primeiras cadelas de inflar. Isso mesmo, cadelas macias de borracha, com profundos olhos castanhos e vagina de silicone, para o seu cachorro deixar em paz a perna da visita. Eficiência garantida — e vem junto, grátis, um tubo de lubrificante.

Pode apostar, vão ser um sucesso. Um sucesso não apenas com os cachorros, claro, mas com alguns donos também. Capaz de logo surgirem outros bichos, como onças e garnisés de inflar.

Isso me lembra um conto do Dalton Trevisan, em que o personagem exclama: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico! Como eu a faria feliz!”.

Muita gente prefere não castrar seus cachorros mesmo que não sejam reprodutores. A peninha: seria tirar algo essencial do bicho. Como essencial, se não usa, se só incomoda? Essa gente está projetando nas bolas do cachorro sua própria ideia de autoestima, ou sei lá do quê.

Fico matutando. Por exemplo, o que o papa tem a dizer sobre as cadelas de inflar? Sei que ele é propenso a condenar antes e pensar depois, ou não pensar nunca, mas nesse caso vislumbro a solução para o problema do celibato católico. Ou será muito forte para o papa a fabricação de meninos e meninas de inflar para resolver o incômodo publicitário e financeiro da pedofilia dos seus comandados? Deve ser, por causa da castidade. A dita cuja, ou pelo menos a imagem dela, tem de ser mantida a ferro e fogo.

A ferro e fogo? Então pode se aplicar aos padres o que não se aplica aos cachorros. Os padres não são reprodutores, nem têm o sexo entre as diversões permitidas, como gravar CDs, cantar na televisão e excomungar meninas estupradas. Portanto, se cortarmos as bolas de um padre, não estaremos tirando nada de essencial dele, confere? Como as bolas, ao contrário das dos cachorros, estão escondidas sob a batina, não servem nem de ornamento. Me parece a melhor saída, nem sei por que não se pensou nisso antes. Aqueles meninos, os castrati, que eram podados para não perderem a vozinha angelical e poderem, mesmo marmanjos, continuar cantando no coro da igreja, não vale. Era em nome da arte, não da moral e dos bons costumes. De qualquer forma os castrati demonstram que a Igreja tem norrau também na caça às bolas além de na caça às bruxas.

Talvez algum(a) carola mais sensível tenha se chocado com a expressão cortar as bolas dos padres. Mas é só uma expressão, ninguém puxou uma navalha. Há hoje o que se chama castração química, muito usada nos Estados Unidos com criminosos sexuais. Certamente é menos gráfica, mas é eficiente. Como é discreta, talvez combine melhor com as manias de sigilo da Santa Madre Igreja, porque na certa algum padre iria querer guardar as bolas num vidro com formol, como muitas pessoas de mau gosto que guardam as amídalas ou o apêndice.

Não sou ingênuo o suficiente para achar que isso resolveria tudo. Sexo não se limita aos genitais. Seria muito chato, por sinal, se se limitasse. Qualquer mocorongo sabe disso, até porque já ouviu a piada aquela de que cafezinho muito quente é prejudicial ao sexo: queima os dedos e a língua. Mas aposto que apenas os homens com real vocação religiosa topariam ser padres se tivessem que deixar as bolas penduradas na porta antes de entrar.

O problema, acho, vão ser inventos para controlar outras fomes, outras gulas. Por exemplo, que espécie de cadela de inflar poderia ser usada pelos senadores, deputados e demais políticos? Eles se sujeitariam a usar uma cadela de inflar se há ao lado um cofre de verdade?

Olha, quando o cachorro se comporta mal, os adestradores dizem que não adianta xingar. Ele não entende. Você tem que deixar o bicho um tempo isolado. Se se comportar mal de novo, isole-o de novo. Lá pelas tantas ele vai se dar conta de que, se não se comportar mal, fica livre. Muito bem, minha proposta é singela: usar, em política, o mesmo método que os adestradores usam com os cachorros. Há uma vantagem evidente, me parece: os políticos, ao verem colegas isolados em locais de segurança máxima, aprenderiam a se comportar bem, como nenhum cachorro faria, talvez com exceção da Lassie e do Rin-tin-tim.

Autor

Ernani Ssó

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