O Millôr disse que o homem, como espécie, foi um fiasco retumbante. Mas que alguns indivíduos deram certo. Concordo inteiramente.
Há dias em que, sem modéstia nenhuma, me sinto na lista dos que deram certo. Em outros me sinto apenas mais um dígito perdido na massa disforme da espécie. A verdade, como sempre, é mais complicada do que sonegação fiscal de assalariado. Quero dizer, talvez o indivíduo dê certo por instantes. No fim, somando esses instantes, pode ser que ele tenha dado certo por uma semana durante a vida toda, ou um dia, ou uma tarde, ou algumas horas. Sem falarmos que um acerto de meio minuto pode ser glorioso, como quando o Newton se deu conta de que a maçã que cai e a lua que não cai obedecem à mesma lei, embora a gente saiba que por trás desse meio minuto havia uma vida toda de treino. Isso também vale para os erros. Há erros tão monstruosos que seria melhor a gente nem falar. Pense no instante em que o cara pensou no uso do forno a gás para fazer uma limpeza étnica, por exemplo.
Pode parecer esquisito, mas meu ceticismo não me impede de viver alegremente. Devo ter algum distúrbio glandular. Mas, claro, sempre há uma hora em que me sinto cabisbaixo nos dois sentidos, como dizia o Campos de Carvalho, com o que vivo e testemunho. É nessa hora que lembro do apito para chamar marreca-piadeira.
Há quem desfralde a bandeira dos gênios literários: Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Rabelais. Eles justificariam a espécie. Pode ser. Mas, confesso: bem no fundo, não me impressionam. É muito besta de minha parte, sei, mas não me impressionam. É como se esse tipo de genialidade fosse esperado.
Me impressiona mesmo é o apito para chamar marreca-piadeira. Tento imaginar o primeiro homem que pensou em fazer esse apito, nas horas que gastou cortando um pedaço de madeira, no instante em que deu o primeiro sopro e se ouviu o canto falso de uma marreca-piadeira. Isso sim é fantástico. Não me encha com Hamlet. O Édipo que vá catar coquinho no asfalto. Queria era estar na mente do homem que inventou o apito para chamar marreca-piadeira no instante fatal da realização. Uma espécie que produziu um indivíduo capaz de bolar um apito para chamar marreca-piadeira merecia um destino melhor. É ou não é? Poderíamos ter sido gloriosos.
Anne Tyler de novo
De tanto falar bem da Anne Tyler, acabei influenciando a mim mesmo e comecei a reler Almoço no restaurante da saudade, publicado pela Mandarim. É chato, mas tenho de reconhecer: eu tinha razão.
Utilidade pública
O Fraga me disse que eu devia montar um serviço de utilidade pública: citar trechos de autores e explicar por que são bons. Seria interessante, caso eu não fosse um crítico de meia tigela e não fosse um tremendo preguiçoso. Daí que pensei outra coisa. Simplesmente citar trechos que me agradaram. Se minha escolha for acertada, ou pelo menos razoável, o leitor com dois dedos de testa vai se dar conta sem necessidade de explicação nenhuma.
Vamos ver.
Por que ler Anne Tyler? Por coisas assim, como este parágrafo de Almoço no restaurante da saudade: “Há vários anos ela tem se preocupado com a morte; mas um aspecto nunca lhe passara pela cabeça: morrendo, você não sabe mais o que acontece. Perguntas formuladas ficarão sem resposta para sempre. Este meu filho vai assentar a cabeça? Aquele será mais feliz? Algum dia descobrirei o que isto ou aquilo significava? (…) Também pensara que haveria um momento decisivo, um súbito clarão em que de repente descobriria o segredo; um dia acordaria mais sábia e mais contente, aceitando mais as coisas. Mas não acontecera. E agora não aconteceria mais. Achara que em seu leito de morte — leito de morte! Ora, aquela era sua cama de todo dia, uma cama ortopédica comum, não o imponente leito de latão que sempre projetara em sua mente. Pensara que em seu leito final encontraria alguma coisa definitiva para dizer aos filhos quando se reunissem ao seu redor. Mas nada era definitivo. Não tinha nada para lhes dizer. E Pearl sentiu uma certa inibição, sentiu-se inadequada. Mexeu os pés irrequietamente, procurou um lugar mais fresco no travesseiro”.
Por que ler os clássicos?
Segundo Ítalo Calvino, depois de enrolar por três ou quatro páginas, porque são clássicos. Confesso, tem horas que tenho vontade de mandar alguns escritores famosos à, digamos, esquina ver se não estou lá lendo um clássico.
Hitler
Manchete na UOL: “Livro que pertenceu a Hitler o reduz à dimensão humana”. O livro esse não deveria elevá-lo à dimensão humana?

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