Recebi, faz pouco, de um amigo, um mail com a recomendação, “por favor, repassem, é filha do Natanael da Emater”, na linha de assunto. Abaixo, no corpo do mail, um jpg com a foto de um recém-nascido. Chama-se Natalie E aí já começa a trambicagem: a suposta mãe, Krista Marie, “assina” um drama: que a filhinha nasceu com câncer no cérebro e precisa de uma cirurgia que só será possível se cada um que enviar a foto para sua lista de mail doar 5 centavos via AOL para os infortunados pais. Nada mais: nem número de conta de banco, nem nomes completos. Nada. Fácil cair: afinal, “é a filha do Natanael da Emater”! Quem vai questionar?
Já falei, neste espaço, anteriormente, mais de uma vez, em hoax, o embuste virtual que é primo-irmão do golpe aquele do “bilhete premiado” na “realidade real” em que tantos caíram – e ainda caem! É só colocar no Uncle Google o nome Krista Marie: aparecem 5.500 e tantas páginas em português e 360 mil em inglês! Estejam certos que valem todos os pontos de exclamação redundantes deste texto. Me pergunto como ainda as pessoas repassam e, quiçá, tentam enviar dinheiro para quem nem sabem se existe nestes tempos que correm.
Claro que ali, no embuste de Krista Marie, estão os ingredientes ideais: um bebê frágil, recém-parido, uma doença cruel, a pobreza e humildade dos pais em pedir ajuda etc etc etc. No entanto, depreende-se que quem tem uma certa familiaridade no uso da internet, pelo menos na troca de mails, já recebeu no mínimo uma vez coisa parecida: ou sobre criancinha sequestrada, doença grave ou coisas milagrosas que os sistemas de pega-spam deixam passar. Eu mesma, há uns dois anos, recebi um mail vindo da África me avisando sobre a morte de um parente de sobrenome Bairros (e toda a família) num horrível acidente e que deixara uma fortuna que, honestas, as autoridades locais queriam me entregar, já que haviam milagrosamente me localizado! Claro que eu deveria cumprir algumas tarefas antes de botar a mão na grana. É o tal golpe dos nigerianos.
Tentei levar adiante a conversa com o notaire (sim, era em francês) que tinha endereço e telefone localizáveis na lista acessada na internet. Mas não adiantou. Meu entusiasmo e falsa ingenuidade não o convenceram e o meu “benfeitor” sumiu. Uma lástima – tanto eu não ter realmente um parente que tenha feito fortuna além-mar e me tenha deixado como única herdeira quanto ter sido péssima investigadora e não haver conseguido mais detalhes da trama que esta conhecida quadrilha ainda propaga mundo afora.
Sempre sou durona e antipática com meus amigos que mandam mails como o de Krista Marie: didaticamente, envio links para provar que eles estão repassando uma mensagem mentirosa, comento que isso acontece mas é preciso estar atento, que não é algo tão inocente assim e que, no mínimo, tira tempo útil de quem recebe. Tem gente, porém, que faz mais que isso: cria espaços para desmascarar os hoax. No quatrocantos.com há as lendas da internet que são devidamente esquadrinhadas e examinadas sob a visão da lógica. Vale a pena entrar e ler em especial sobre a carta de uma tal Patrícia, portadora de HIV endereçada aos jovens do Brasil que volta e meia, a exemplo de Krista Marie, vem nos assombrar. E tem o museu dos hoaxes, muito interessante também, que desmascara até aquelas propagandas de emagrecedores que usam photoshop pra engordar modelos e vender milhões de unidades de porcarias que deixam os gordinhos sempre gordinhos e frustrados, sem ter como reclamar. Neste site há a história dos hoaxes, os sites especializados em enganação e até testes para ver o que é falso e o que é verdadeiro nesta rede.
Por tudo isso, fico pensando: é tanto recurso disponível na tecnologia de hoje e quase democraticamente na medida para todos que é uma lástima que, por sentimentalismo, preguiça ou ignorância, continuemos acreditando em mentiras e mentirosos. Não só na internet, mas na vida real em especial: nunca falta aquela criatura fraca de caráter disposta a auferir algum lucro, seja financeiro, seja simples reconhecimento pessoal, que adora conspirar. E mais triste é saber que não faltam naîves para cair neste tipo de hoax interpessoal.
