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Metido a besta

A necessidade de conhecer os veículos dos diversos segmentos da mídia internacional, para um estudo que realizei no ano passado, me conduziu à leitura …

A necessidade de conhecer os veículos dos diversos segmentos da mídia internacional, para um estudo que realizei no ano passado, me conduziu à leitura de um relatório minucioso, atualizado e produzido por fonte insuspeita, sobre o nível de confiança do público de cada país no noticiário dos meios de comunicação da Europa e dos Estados Unidos. Foi quando soube, por exemplo, que os franceses acreditam muito mais nas informações transmitidas pelo rádio do que naquelas que recebem pela televisão e pelos jornais. Isto ocorre porque se consolidou no público a percepção de que o rádio trabalha com independência editorial, enquanto a televisão é oficialista e os jornais se mantêm ideológica ou politicamente tendenciosos.

Lembrei do relatório e dessa peculiaridade francesa, em relação aos demais países europeus, ao ler as conclusões do estudo, realizado e recentemente publicado pela empresa TNS, sobre o grau de confiança do público nos noticiários veiculados por internet, televisão e jornais impressos. Como o trabalho foi feito para investigar comportamentos e perspectivas no ambiente online, presumo que o rádio ficou de fora porque não o consideraram concorrente da internet. Mas isso é tema para outro dia.

A pesquisa ouviu quase 28 mil internautas em 16 países (nenhum latino-americano nem africano!!!) e apurou, em síntese, que 41% manifestaram confiança nos telejornais, 40% disseram acreditar no noticiário da internet e 19% declararam confiar no que publicam os jornais. OK, pode ser, mas o dado que mais despertou minha atenção foi outro: a constatação de que os blogs são os canais menos confiáveis da internet. A TNS apurou que só 10% dos entrevistados acreditam nessas fontes.

Não leio blogs produzidos no exterior e, mesmo que tenha e reconheça no Brasil muitos colegas competentes e amigos talentosos que editam blogs, é muito raro que leia algum, independentemente de que o blogueiro seja ou não vinculado a veículo ou veículos de qualquer outra mídia.

De modo geral, minha indisposição à leitura de blogs decorre da larga preferência que tenho por informação, em detrimento de opinião. Notícias – reportagens, para ser mais preciso – me interessam muito mais do que opiniões. E, especialmente no âmbito da política e da economia, a maioria dos blogs contêm opinião demais e informação de menos – provavelmente porque produzir opinião é muito mais barato do que andar atrás de informação.

Minha indisposição evolui ao nível de absoluto desinteresse quando se torna possível identificar interesses não declarados, sejam partidários, comerciais, governamentais ou quaisquer outros, tanto nas opiniões quanto até nas informações veiculadas por blogs. Esses eu deixo de ler.

Como os pesquisadores da TNS não se deram ao trabalho de passar por aqui e não há pesquisa sobre o grau de confiança dos brasileiros nos noticiários das diferentes mídias, é possível que eu esteja falando sozinho. Favorece esta hipótese uma reportagem, publicada em revista há poucos dias, sobre a multiplicação de pessoas – jornalistas e, majoritariamente, não jornalistas – que sobrevivem no país editando blogs. Significa que talvez eu faça parte de uma minoria ou esteja desatento ao progresso editorial dos blogs. Vai ver, sou um filho de cafundós que, metido a besta, geralmente confia mais no rádio, como os franceses, e despreza também como eles o jornalismo oficialista e tendencioso.  

Autor

Robson Barenho

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