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Rede de mentiras

Minha amiga internauta Vivien Morgato, que tem um blog exemplar tanto plástica como editorialmente e que se chama A Casa da Mãe Joana, me …

Minha amiga internauta Vivien Morgato, que tem um blog exemplar tanto plástica como editorialmente e que se chama A Casa da Mãe Joana, me enviou um mail, ontem, quinta-feira, lamentando ter repassado adiante um vídeo sobre suposta empresa dos Estados Unidos que estaria querendo comprar a Amazônia. Ela descobriu que era um jogo, uma criação “inocente” que mistura realidade e ficção. Vivien, uma professora de História defensora da ecologia, inteligente, lúcida, viu o vídeo e tratou de, indignada, divulgá-lo, alertando para os perigos dos “invasores”. Rimos muito ontem, ela se queixando do mico que pagou, e eu dizendo a ela que “quem não mica se trumbica”, bordão de Chacrinha atualizado para estes tempos de virtualidade. 

A divulgação de hoax, o tal embuste, mentira, enfim, sobre o que já falei aqui em mais de uma ocasião, já passou da fase do espanto para o ridículo e agora o perigoso. Há pouco, recebi um mail que tem me chegado de diferentes fontes desde o dia 20 e que se chama “O Babaca de Porto Alegre”. Ele exibe a foto de um jovem, na janela de um carro, fazendo um gesto obsceno e, junto, o texto de uma pessoa se queixando do fato e comentando as providências legais que teria tomado.

Quando me mostraram, pela primeira vez, esta “preciosidade”, alertei: isso é palhaçada, é hoax. Pois hoje, voltei a receber o “material”, desta vez contendo um esclarecimento assinado por uma advogada das mais competentes deste país, pedindo que fosse interrompido o envio do conteúdo com seu nome e ainda incluindo um número de seu telefone. O esclarecimento, convém ressaltar, obviamente, já foi repostado em vários endereços da rede. É a auto-alimentação da internet, impossível de ser freada.

A advogada em questão, que conheço desde os já distantes anos 1970 (foi minha colega de faculdade) e que é, de fato, uma pessoa discreta, de família conhecida e que não está interessada em holofotes, me telefonou. Com o mesmo jeito que tinha naquela época, educada, doce, incapaz de agressões ou gestos vulgares, ela me contou que, desde o dia 4 de novembro, está mergulhada neste processo desgastante que a deixou, desde o primeiro momento, com aquela horrível sensação de vulnerabilidade. Com qual finalidade usaram seu nome, ela não sabe. Arrisca, até, um palpite – que o primeiro a ter assinado o hoax com seu nome o tenha feito em busca de credibilizar o material.

De toda forma, esta ex-colega precisou colocar uma estagiária em seu escritório de Porto Alegre só para atender os telefonemas de quem se interessar em tirar a história a limpo antes de tocar o dedo na tecla de enviar e propagar, mesmo sem querer, uma mentira. Falamos sobre a falta de critério e a precipitação da maioria das pessoas em levar adiante informações não-checadas e ela chegou a me comentar o quanto é fácil fazer uma montagem com a foto de pessoas inocentes, juntando adulto com criança, e criar uma falsa denúncia sobre pedofilia, por exemplo. Concluímos, ambas, que a web não tem mais qualquer controle sobre nada e que, assim como é maravilhosa, é apavorante.

Na semana passada, outra amiga, jornalista, me havia repassado um mail sobre uma menininha seqüestrada com o título: “Se fosse sua filha, você não repassava?”. Senti na hora que era golpe, do tipo sujo-emocional. Olhei as fotos da garotinha no colo de um sujeito de óculos escuros, rindo, anotei o nome do “pai” que assinava o pedido de auxílio e fui pesquisar no Uncle Google. Descobri que mais esta mentira anda rolando virtualmente desde 2003 e que o tal pai é um malandro que tem um endereço do tipo isca para “namoros”. Ou, pior, pode ser um homônimo de um pai aflito. Quem pode saber? Quanto à criança, quem poderá ser?  

Comento tudo isso porque o que era um amontoado de besteiras inócuas está tomando o rumo da crueldade. Na medida em que envolve crianças e coisas como seqüestro, para mim, isso é caso de Polícia Federal mesmo. E, agora, com a tragédia de Santa Catarina, mais ainda: os canalhas de plantão rapidamente se mobilizaram e estão vendo multiplicar seu golpe que pede ajuda aos flagelados via depósito em conta que nada tem a ver com as entidades idôneas encarregadas das doações. E nada acontece, porque até alguém ler uma notícia em algum site alertando para a bandidagem, já mandou dinheiro para a conta do criminoso.

Como não há uma solução legal aplicável para tanta falcatrua virtual, prevalece a máxima de que prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Em caso de dúvida, não repasso mails sobre temas escandalosos ou perigosos. Melhor passar por insensível do que eternizar esta corrente da má-fé.

Em tempo: segundo minha ex-colega envolvida maldosamente no mail “O Babaca de Porto Alegre”, o fato existiu mesmo, o pai do garoto telefonou para ela, contando que o filho está sendo vítima até de ameaças e que o que era uma questão de trânsito virou um problema judicial maior do que deveria. A própria autora do mail, que tem um blog, estaria arrependida do que fez. Tudo pela divulgação assombrosa que a internet promove.

Autor

Maristela Bairros

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