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Flavia vivendo em coma

Em 1º primeiro de janeiro do ano passado, Odele Souza colocava na rede o blog flavia vivendo em coma. Seu primeiro post, no dia …

Em 1º primeiro de janeiro do ano passado, Odele Souza colocava na rede o blog flavia vivendo em coma. Seu primeiro post, no dia seguinte, narrou a tragédia que caiu sobre sua família quando a filha, então com  10 anos, mergulhou na piscina do prédio em que moravam e teve os cabelos puxados traiçoeiramente pelo ralo. Era janeiro de 1998. As seqüelas pela falta de oxigenação do cérebro foram irreversíveis e, desde aquela data, Flávia vive em coma vigil – abre os olhos durante o dia, mas não tem comunicação com o mundo em sua volta.

Não lembro bem como conheci o blog de Flavia. Mas dele e de Odele nunca mais me desliguei. E creio que o mesmo acontece com um por um dos que clicam no endereço. Especialmente porque quem ali escreve não vive de autocomiseração, tampouco de revoltas sem nexo. Odele faz do espaço uma ponte para buscar, além da justiça que já tarda para sua filha (cujos cuidados exigem valores que os acusados deveriam estar pagando mas, calhordamente, deixam de fazê-lo com anteparo legal) um constante alertar ao mundo para os perigos que rondam uma aparentemente inocente piscina doméstica.

E é impressionante a força dos blogs na divulgação de fatos e também na repercussão de atitudes. Em 17 de dezembro passado, Odele se animou a chamar a primeira blogagem coletiva do flavia vivendo em coma. A data era simbólica: no dia seguinte, Flavia completaria 20 anos de idade, dez deles presa a uma cama e a seu mundo incomunicável. Com a ajuda de outros blogueiros, em especial no que toca à parte de logística de internet, a mãe-coragem foi se anunciando e ampliando, com a multiplicação que este tipo de ação promove, a sua rede. Ao final , computou-se cerca de 170 blogs que, num mesmo dia, falaram do mesmo tema, com diferentes focos.

Daqui a um mês, ou seja, dia 15 de setembro de 2008, Odele promove outra blogagem conjunta. Desta vez, o tema é Justiça para Flávia. E já computa 123 blogs um mês antes da blogagem. Gente de Portugal, Itália, Holanda, Suíça, Suécia, Peru, Estados Unidos, Argentina, França e Espanha, além de cidades de todo o Brasil enviou sua confirmação de participação.

Odele se ressente, e com razão, do silêncio das chamadas mídias ortodoxas sobre o caso de Flavia. As reportagens são sempre periféricas – ou ficam nas versões virtuais dos veículos ou aparecem em revistas de circulação reduzida, e, mesmo na tv, onde tragédias bem menos significativas ganharam amplo espaço, a de sua filha raramente é exposta. A pauta já seguiu, mais de uma vez e por diferentes mãos, para a tal grande mídia. Mas nem Fantástico, nem Domingo Espetacular, nem mesmo Ana Maria Braga, sempre tão ciosa em suas missões humanitárias, deram sequer um minuto de seu tempo para a jovem Flavia e sua mãe.

Os blogs, assim, cumprem um papel que seria dos veículos em seus formatos mais antigos. Azar de quem não entende a importância social, cultural e humana de um assunto como esse. Perdeu o trem-bala da História e não sabe.

Autor

Maristela Bairros

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