O que faz uma pessoa ser bem-sucedida, rica, exemplar entre seus pares da família humana? Tenho me feito esta pergunta amiúde e confesso que, apesar de todos os livros de ditos experts que tentam explicar este “fenômeno”, nenhum argumento me satisfez. E o que faz, então, alguém, além de ser bem-sucedido, rico e exemplar para seus pares, mudar a história humana? Inteligência? Perspicácia? Feeling? Sorte? Proteção dos deuses ou dos demônios? Missão espiritual?
Hoje, recebi por mail, li e vi a entrevista exclusiva que Bill Gates deu para a revista de economia ChallengeS (braço do Nouvel Obs) e que tem por título “O Testamento de Bill Gates”. “Não me arrependo de nada”, diz este americano típico, sem graça, cara e atitude de nerd, lá pelas tantas, ao jornalista Gilles Fontaine. A partir de primeiro de julho, como todos sabem, Bill larga tudo, ou seja, todas suas funções operacionais na Microsoft, para se dedicar à sua Fundação. Foram 32 anos de trabalho. Uma vida. Agora, vai se atirar de corpo e alma a projetos para o bem comum, que a revista prefere de chamar “obras de caridade”. Claro que dará um, digamos, meio turno, para a cria que o consagrou e forrou-lhe os bolsos.
Bill conservará, é claro, sua cadeira de presidente do conselho de administração e permanece como o acionário principal do grupo. Steve Ballmer, o PDG e amigo, diz, sem a menor vergonha: “Vou utilizá-lo, mas não vou precisar dele”. Ballmer fica agora sozinho no comando operacional mas, como bem lembra a revista, a integração entre estes dois teve um papel fundamental na construção do grupo com seus métodos comerciais muito e muito contestados.
Bill sai dia 27 e diz que fará um feriadinho no dia 30 para, no primeiro dia de julho, se instalar na Fundação. Falsamente modesto, reconhece seu papel atual de simples embaixador da Microsoft: “me dei conta há pouco que já fui ao Japão umas 50 vezes”. Quanto a tudo que construiu, um olhar para trás não provoca nem nostalgia: ” O que aconteceu me parece um pouco mágico. A gente sonhava com uma indústria de computadores e complementos que levassem mais poder às pessoas. O computador pessoal se tornou essa coisa. Hoje temos uma gigantesca indústria de computador que não existia há 30 anos. Temos milhões de pessoas que utilizam regularmente um PC e a variedade de usos é fenomenal”.
Justificadamente envaidecido, cita o que este mundo que ajudou a criar acrescentou à vida do homem: “penso nos cegos que até então precisavam esperar que os textos fossem impressos em braille e que hoje surfam na Internet, nos alunos que aprendem com mais eficácia graças ao computador. A Microsoft está no centro desta revolução que viu o computador equipar o PC e, agora, o celular, a televisão, o carro… ela ajudou dezenas de milhares de empresas desta indústria a se desenvolver em cima da plataforma que criamos”
Arrependimentos? “Posso parar e pensar em pessoas que recrutei, algumas vezes, e no que fui ingênuo, ou em aquisições que fizemos e a coisas que não poderíamos lançar mais cedo. Mas eu não mudaria nada, porque isto é a concretização de um sonho que exerceu um papel extremamente importante. Aprendemos fazendo e, conseqüentemente, errando, porque fomos a primeira empresa a acreditar no computador pessoal. Toda a indústria se desenvolveu em volta de nosso sistema de exploração Basic, depois MSDOS e, finalmente, o Windows”.
A máxima que guiou a construção do futuro império – ” um computador em cada casa, sobre cada escrivaninha” – ainda é citada por Bill que admite que muitas coisas previstas foram realizadas e outras precisarão de uns 20 anos ainda: “O reconhecimento da voz ou o quadro inteligente não existem ainda… exceto no centro de pesquisa da Microsoft”, provoca. E enumera algumas realizações, como o táctil com o iPhone para o celular, o a 3D com Nintendo. “Com o computador Tell me podemos pedir que nosso telefone nos dê um número. Mas precisaremos ainda de uma dezena de anos antes que estas novas interfaces se popularizem”.
O cara que desistiu de Harvard para montar sua empresa reconhece que ainda não se vive o tempo em que todos os estudantes, antes de ter livros que ele classifica de “fora de moda, pesados e caros” disporão de um PC tablete para registrar as aulas, escrever, surfar na internet. “Mas a cada manhã, nos levantamos nos perguntando o que nos falta em material e computador para que isso aconteça”, acrescenta, reafirmando sua crença de sempre no PC tablete para estudantes. “Minha filha está numa escola que usa este tipo de aparelho há sete anos. É incrível vê-los aprendendo as matérias, usando mapas e descobrindo outros países!”. E conta mais: que a Coréia do Sul vai abolir os cadernos de todas as salas de aula até 2012!
Quanto à concorrência do Google, Bill não baixa a guarda e até ameaça: “estamos presentes no mercado de computadores de empresas, bases de dados, mensageiros eletrônicos profissionais. O Google não existe verdadeiramente nestes mercados. Na realidade, seu sucesso se funda em uma coisa – os links oferecidos por seu motor de busca. Eles fizeram um trabalho fenomenal, são líderes, mas nossa equipe tem trabalhado a cada dia com a idéia de criar alguma coisa de melhor”.
Hoje, a Microsoft investe em busca também de novos produtos através de laboratório de pesquisa na Europa, em Cambridge, no campus da Universidade, e tem uma parceria com a Inria, na França. Condição para fazer parte do time: ser brilhante! Assim como tem de ser em Redmond, o quartel-general, ou no centro aberto há pouco em Boston, além do que existe na Califórnia e, além-mar, na China e na Índia, países que ele vê como mercados do futuro.
Mesmo com esse namoro com o meio universitário, Bill reconhece que há barreiras a serem derrubadas. Embora, segundo ele, cerca de um quarto dos doutores em ciências da informática passe um período pelos laboratórios de pesquisa da Microsoft.
Agora, então, que “se meio aposenta”, Bill Gates afirma que seu desafio maior vai ser pensar sobre formas de mudar o quadro de miséria do planeta, indo da educação à saúde. “Não seria normal que todas as lindas invenções sejam aproveitadas apenas pelos milhares de mais ricos, elas precisam ser de proveito de todos. Há muito a fazer no que diz respeito ao modo de transmitir esse progresso.” Dinheiro, enfatiza, não falta à sua fundação, ajudada pelo amigo Warren Buffet. E também boa vontade para sentar-se à mesa com governantes, o que, sejamos francos, deve ser a pior parte. Mas Bill não se intimida: ” Tudo isso me entusiasma”.
