Martin Vidberg mantém um blog no Le Monde que se chama L’ Actu em Patates, em que ele, um premiado desenhista, mistura textos e desenhos sempre de corte humorístico. Em seu post desta quinta-feira, ele comenta que na cidade em que também leciona, Strasbourg, as autoridades educacionais estão pondo em prática um projeto inusitado. Trata-se da eliminação, na vida de 250 escolares entre 6 e 11 anos, durante dez dias, de toda e qualquer tela – videogames, televisão, computador – e começou a valer na segunda, dia 19. “Eu acho a iniciativa divertida e sem dúvida enriquecedora se os alunos tiveram realmente escolha”, comenta Martin, para, em seguida, acrescentar que está sempre um pouco decepcionado quando a principal resposta ao excesso é o que ele chama de excesso ao contrário. “Dez dias é um pouco exagerado se concluir que é preciso suprimir as telas para voltar a uma ‘vida melhor’. Era reamente melhor antes?”, pergunta ele.
Martin faz referência a um artigo, publicado em 17 passado também no Monde, dando conta que 45 por cento da garotada entre seis e 11 anos consagra mais da metade de seu tempo ao lazer, se expondo à violência e à pornografia na Internet. “Eu tenho que reconhecer que sempre que faço minha pesquisa anual sobre uso da web entre meus alunos, a maior parte me revela que já viu coisas que os chocou, surfando sozinhos na rede”, conta ele. Mesmo assim, ele questiona: “Será que os perigos das telas justificam que as pessoas sejam privadas dos aspectos positivos da televisão, da internet e mesmo dos videogames? “, indaga novamente, confessando que não imagina as conclusões que a experiência das escolas de Strasbourg revelará, “mas eu espero que elas sejam um pouco mais equilibradas”.
Quando eu tinha meu filho pequeno, acho que já contei isso aqui ou em meu blog Clínica da Palavra, nem existia internet no Brasil e o que ele via de televisão era sempre supervisionado, ou por mim, ou pelo pai ou por minha mãe, que foi minha babá de luxo insuperável nesta fase da vida. Acontece que, naquela época, Lourenço se fixou em especial em um programa que o canal de Sílvio Santos exibia e que se chamava “O Elo Perdido”. Havia uma família, que caíra num vão do tempo e não conseguia sair da pré-história onde, além de homens da idade da pedra (ou sei lá que idade, porque a caracterização era de doer), havia seres alienígenas, os slistaks (também não lembro se era essa a grafia), semelhantes a lagartos, maus e perigosos.
Criança com cinco anos adora contos de fadas e bruxas e O Elo Perdido era isso, na linguagem eletrônica. Só que repetia, repetia e repetia os episódios. E meu filho lá, vendo. Não adiantava desligar a tevê, levar para a rua, distrair – ele só queria ver o Chaka (era o personagem principal, algo como um menino pré-histórico) e sua luta pela família perdida e contra os homens-lagarto. A solução caseira foi mexer na tv e tirar o canal do ar.
Pois meu filho e toda sua geração cresceram na onda dos videogames e, claro, da internet, esta quando já estava bem mais maduro. Claro que eu ficava sempre em cima e desconfiada quando ia fazer trabalhos escolares ou passar fim de semana na casa de amigos. O resultado final, porém, mostra que ele soube escolher o que é bom e deixar de lado o bafão da web.
No entanto, vendo o que a rede faz hoje, em especial com relação à pedofilia, me horrorizo, enojo e apavoro e acho que estamos cada dia mais impotentes para conter esta onda maligna. Faz poucos dias, foi noticiada a prisão em flagrante (mais uma), em Goiás, de um canalha de 28 anos, baixando e enviando imagens de crianças sendo violadas.
Graças à ONG Safer Net, hoje existe uma CPI para tentar ao menos mensurar e, quem sabe, combater efetivamente este crime que, de virtual, se transforma sempre e de imediato em real. Só no Orkut, mais de 500 usuários se “dedicam” a esta barbaridade. O Google cooperou só sob pressão e ainda ficou devendo alguns perfis, o que me faz pensar qual a vantagem que leva em esconder este tipo de cliente.
De todo modo, acho que a experiência de Strasbourg pode ser exagerada, sensacionalista e até ineficaz. Mas não deixa de ser um jeito de pegar o problema por sua ponta mais sensível – a possível vítima, a criança ou adolescente que é fisgado pelos criminosos da rede. Como o blogueiro do Monde, não sei se antes da tecnologia acessível de hoje era melhor a vida de pais e filhos. A luta para criar cidadãos de mente sã e responsáveis é eterna e nada garante que um garotinho no interior da selva amazônica, sem acesso à internet ou mesmo televisão, não está sujeito à ação de corruptores. Temos, de qualquer forma, é de ficar atentos. E botar a boca no mundo quando flagrar alguma coisa fora dos termos de dignidade, seja física, seja mental. Aquela boa espiadela no quarto do filho ainda é o melhor caminho. Em especial no seu computador. E na sagrada mochila da escola.
