Tuio Becker foi morar em algum filme. Quem sabe
Tuio era muito mais que um editor, ou coordenador de produção ou algo do gênero. Era um vivenciador do cinema. Sua visão do mundo passava pelo filtro do cinema. Crítica, aguda, divertida, rica em detalhes, em pesquisa numa época em que não havia a muleta da internet. Se bem que pouco precisava das pastinhas de papelão do arquivo da época da Caldas. Ele tinha uma memória absoluta. Implacável.
O que me fica de Tuio é a noção de absoluta retidão na conduta profissional e pessoal, nem que para isso tivesse de ser duro, sem meios-termos. De sua crítica, nem amizade escapava.
Fica, também, a competência para escrever, até em meia dúzia de linhas – na nova fase do Correio –, uma verdadeira lição de sociologia e antropologia com os elementos que via na telona.
O que fica de Tuio para o jornalismo cultural é o conhecimento ímpar e inimitável. Um jeito dele e só dele para dissecar uma cena, ressaltar um gesto, nos fazer enxergar um olhar do personagem que nos passara batido no contexto do encantamento do escurinho do cinema.
Algumas das últimas fotos do Tuio ainda dono de sua memória e de sua vida “normal” eu guardo aqui
Nesta foto, está meu colega, ex-editor e amigo Tuio, o rosto anguloso, os cabelos curtos grisalhos, os olhos esverdeados brilhantes, a expressão séria, observadora. Poucos meses depois, ele já estaria definitivamente longe deste mundo, sem o menor espaço para sua lucidez de ver a vida através da arte. E se há alguém que não merecia viver no mundo da falta de memória, no mundo cruel da alienação, este alguém é o Tuio Becker.
E muito me dói não ter feito o perfil que o Emanuel Mattos sugeriu e o Vieira me cobrou para o Coletiva antes desta partida.
Agora, fico olhando para aquela gravura do Palácio Escorial, que ele me trouxe de uma viagem à Europa, e imaginando que, quando ele ler este texto, vai dizer: “Ih, Marista, tá romântica, hoje?”, como ele fazia, ironizando e rindo, quando eu me empolgava com minhas críticas de teatro nos velhos tempos de Folha da Manhã e Correio do Povo.
