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Tuio Becker, enfim, na telona

Tuio Becker foi morar em algum filme. Quem sabe em La Dolce Vita, de Fellini, com Marcelo Mastroianni e outros (dos poucos) astros que …

Tuio Becker foi morar em algum filme. Quem sabe em La Dolce Vita, de Fellini, com Marcelo Mastroianni e outros (dos poucos) astros que ele admirava quase sem restrição. Quase. Porque Tuio não via unanimidade em nada. Um dia, o ouvi elogiar Julia Roberts, afirmando que era a mulher mais linda do cinema. Mas o olhar crítico deste baixinho que não quis ser arquiteto porque a paixão pelo cinema era maior que tudo, não permitia jamais ver uma obra como totalmente perfeita. Este tipo de crítica morreu com Tuio, quando ele se retirou ao deixar o Correio do Povo, para onde migrara após o fechamento da Folha da Manhã (seu veículo de origem), onde o conheci, nos anos 70, após aquela pausa fatídica para a qualidade do jornalismo cultural gaúcho que foi o crack da Companhia Caldas Jr.

Em Zero Hora, assumindo mais e mais cargos burocráticos, com o nível de exigência de sempre, mas soterrado pelas rotinas emburrecedoras normais de redação, ele foi, aos poucos, deixando de lado a crítica cinematográfica, sua razão de ser.

Tuio era muito mais que um editor, ou coordenador de produção ou algo do gênero. Era um vivenciador do cinema.  Sua visão do mundo passava pelo filtro do cinema. Crítica, aguda, divertida, rica em detalhes, em pesquisa numa época em que não havia a muleta da internet. Se bem que pouco precisava das pastinhas de papelão do arquivo da época da Caldas. Ele tinha uma memória absoluta. Implacável.

O que me fica de Tuio é a noção de absoluta retidão na conduta profissional e pessoal, nem que para isso tivesse de ser duro, sem meios-termos. De sua crítica, nem amizade escapava.

Fica, também, a competência para escrever, até em meia dúzia de linhas – na nova fase do Correio –, uma verdadeira lição de sociologia e antropologia com os elementos que via na telona.

O que fica de Tuio para o jornalismo cultural é o conhecimento ímpar e inimitável. Um jeito dele e só dele para dissecar uma cena, ressaltar um gesto, nos fazer enxergar um olhar do personagem que nos passara batido no contexto do encantamento do escurinho do cinema.

Algumas das últimas fotos do Tuio ainda dono de sua memória e de sua vida “normal” eu guardo aqui em casa. O fotógrafo o flagrou, para pose oficial, nas escadarias do casarão da Praça da Matriz em que funcionava a Secretaria de Estado da Cultura, no dia em que ele foi ao departamento de pessoal para assinar a papelada para assumir a coordenação do Instituto Estadual do Cinema. Foi em 2003. Semanas depois, apesar do entusiasmo com o cargo, certamente intimidado pelo avanço rápido da doença que ele pressentia, Tuio desistiu. E muita gente não entendeu, achando que Tuio tinha ligações com outros partidos políticos, logo ele que desprezava qualquer coisa da política pobre e de siglas. Foi uma fofoca de uma canalhice inominável, espalhada pela cidade sem dó, por alguns pobres de espírito e, pior, aceita por gente que estava no chamado poder e aceitou a versão torta.

Nesta foto, está meu colega, ex-editor e amigo Tuio, o rosto anguloso, os cabelos curtos grisalhos, os olhos esverdeados brilhantes, a expressão séria, observadora. Poucos meses depois, ele já estaria definitivamente longe deste mundo, sem o menor espaço para sua lucidez de ver a vida através da arte. E se há alguém que não merecia viver no mundo da falta de memória, no mundo cruel da alienação, este alguém é o Tuio Becker.

E muito me dói não ter feito o perfil que o Emanuel Mattos sugeriu e o Vieira me cobrou para o Coletiva antes desta partida.

Agora, fico olhando para aquela gravura do Palácio Escorial, que ele me trouxe de uma viagem à Europa, e imaginando que, quando ele ler este texto, vai dizer: “Ih, Marista, tá romântica, hoje?”, como ele fazia, ironizando e rindo, quando eu me empolgava com minhas críticas de teatro nos velhos tempos de Folha da Manhã e Correio do Povo.

Autor

Maristela Bairros

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