Nos meus tempos de grupo escolar, um dos sonhos meu e de todas as outras crianças da escola era poder acessar, na biblioteca, as enciclopédias. Minha paixão especial era a Barsa, que a gente disputava quase a tapa, em especial o volume dedicado às histórias infantis. Havia outras, das quais não lembro mais o nome. Mais tarde, já no ginásio, a disputa era pelos sisudos volumes da Britânica.
Hoje, está praticamente tudo na Internet, em especial na perigosa Wiki, feita e refeita à vontade dos colaboradores. Mas a Encyclopaedia Britannica não aceitou ficar para trás como um monte de livros anacrônicos. Mesmo que, de acordo com o instituto de medição de audiência Comscore, para cada página vista (o acesso para consulta é pago) no site da Britannica, o internauta visite 184 páginas da Wikipedia. A coleção de volumes que dava status aos estudantes da minha época (só pagava quem podia) hoje conta com um CD-Rom, a empresa também criou um fluxo via RSS, abriu conta Twitter e está lançando WebShare, um acesso livre por um ano ao conteúdo integral dos 32 volumes para todos os que escrevem regularmente na web.
Segundo matéria do Libération , para usar esta oferta, basta preencher um formulário no site da Britannica e indicar o nome do site ou do blog. A enciclopédia decidirá se validará ou não o pedido, com o procedimento-padrão de enviar um mail, em dois dias, com a senha que permitirá ao internauta ver 120 mil notícias, imagens, vídeos e dicionários.
Mas não fica nisso: ninguém poderá colocar em linha nem textos nem imagens provenientes da Britannica, somente os links para os artigos.
A estratégia, ao que parece, é promover a leitura do conteúdo e a citação nos blogs e sites e, a partir daí, ganhar mais referências no todo poderoso google, o big brother da web. De quebra, a enciclopédia acha que pode conseguir novos usuários pagantes – 69,95 dólares anuais.
Problema: difícil ler os artigos oferecidos “de grátis”. Ao aceitar a oferta gentil da Britannica, o usuário faz um link para um artigo que, na verdade, é uma amostra com muito anúncio. Pior: uma janela oferece a enciclopédia gratuita por uma semana, desde que o usuário dê seu número de cartão. Se aceita, tem que ficar de olho no limite ou, automaticamente, terá de pagar a consulta.
A briga com a Wiki, que é cheia de defeitos, ingenuidades e malandragens (muita gente se autopromovendo ou suas empresas na maior cara-de-pau), não vai ser vencida tão cedo pela respeitável Britannica. A questão fechada do copyright conta pontos contra. Assim como a falta de atualização dos verbetes e matérias.
Pensando bem, prefiro ficar com minha lembrança da velha Barsa, da velha Britannica que nunca tive e até da Mirador que eu muito consultei quando trabalhava na antiga Caldas Jr.
Vejam só: já falo em antiga Caldas Jr. O tempo passa.
E, confesso a meus quatro leitores e meio: escolhi este tema porque estou angustiada com a reconstuição do crime de Isabella, neste domingo, já nem sei o que escrever ou pensar, porque o excesso de informação deixa qualquer wikipedia no chinelo.
